NÚCLEO CULTURAL KRISHNAMURTI

KINFONET NEWSLETTER

JULHO / AGOSTO, 2006

 

PERGUNTA DO MÊS

Pergunta do mês

Pergunta: É possível a mente humana poder perceber a verdade?

 

Krishnamurti: Pode a mente humana perceber a verdade? Acho que não pode. O que é presentemente a mente humana? Existe uma mente humana, ou é meramente a resposta instintiva do animal que continua em nós? Não é uma observação sarcástica!

Em primeiro lugar, para perceber qualquer coisa na vida, e muito mais a verdade - para perceber a minha mulher, o meu vizinho, o meu filho - tem que existir uma certa calma na mente, não uma calma disciplinada - nesse caso não é calma, é uma mente sem vida. Ora, uma mente em conflito não deixa observar nada, observar eu próprio. Portanto, estou em permanente conflito, em constante movimento, a mexer, mexer, a falar, eternamente a fazer perguntas, a explicar; aí não é possível haver qualquer observação. É isso que a maior parte de nós faz, quando estamos perante 'o que é'. Portanto, vemos que só pode haver observação quando não há conflito. Para não haver conflito, podemos tomar um tranquilizante, um comprimido, para ficarmos tranquilos, mas não é isso que dá percepção, isso faz-nos é dormir; e isso é provavelmente o que a maior parte de nós quer. Ora, para observar, tem que haver uma certa tranquilidade na mente; e se se vê ou não o que é a verdade, depende da qualidade da mente.

A verdade não é algo estático. A verdade não é algo fixo - que não tem poder. É algo que deve ser vivo, tem que ser extraordinariamente sensível, vivo, dinâmico, vital. E como é que uma mente pútrida e débil que está em tumulto, permanentemente mordida pela ambição - como é que pode compreender isso? Pode dizer que há a verdade e repeti-lo continuamente e deixar-se adormecer.

Assim, a questão é, realmente, não se a mente humana pode compreender a verdade, mas se é possível derrubar os muros da mesquinhês que o homem construiu à sua volta e a que chama mente - essa é de facto a questão. Um dos muros de que todos nós gostamos tanto é a autoridade.

 

- 'Collected Works' [Colectânea], vol. 13, 1962-1963. Revolução Psicológica Varanasi, Índia

2ª Palestra Pública, 3 de Janeiro, 1962
© Krishnamurti Foundation of America

 

 

Editorial Kinfonet - O Caminho menos percorrido
[as expressões em itálico são genuinas de Krishnamurti]

 

'Eu disse-lhes hoje de manhã - durante setenta anos, que esta superenergia - não - esta imensa energia, imensa inteligência usou este corpo. Acho que as pessoas não conseguem compreender que energia e inteligência fantástica passou por este corpo - há o motor de doze cilindros. E, durante setenta anos - foi muito tempo - e, agora, o corpo não aguenta mais. Ninguém, a não ser que o corpo tenha sido preparado, muito bem protegido, etc., ninguém pode compreender o que passou por este corpo.Ninguém. Não sabem o que aconteceu. Eu sei que não sabem. E, agora, passados setenta anos, chegou ao fim. Não que essa inteligência e energia - está aqui de qualquer forma, todos os dias e especialmente à noite. E, passados setenta anos, o corpo não aguenta. Já não aguenta. Não pode. Os índios têm umas superstições danadas sobre isto, que vamos e o corpo vai e uma série de coisas do estilo. Não é possível encontrar outro corpo como este, ou essa inteligência suprema a operar num corpo durante muitas centenas de anos. Não veremos nunca mais. Quando ele partir, desaparece. Não vai ficar nenhuma consciência dessa consciência, desse estado. Irão fingir ou tentar imaginar que podem entrar em contacto com ela. Talvez consigam um pouco se viverem os ensinamentos. Mas ninguém o fez. Ninguém. E é tudo.' (Lutyens, Mary. A Vida e Morte de Krishnamurti. Londres: Rider, 1990, pág. 206).

Esta confidência ocorreu entre um grupo de pessoas e Krishnamurti pouco antes da sua morte. Foi registada literalmente e mais tarde incluida na biografia feita por Mary Lutyens. Embora as declarações não sejam completamente coerentes, ficamos com a impressão de que Krishnamurti sugere aqui que, ao fim e ao cabo, o homem não pode ser livre.

Uma frequente reacção a esta passagem é medo: significa isto que não há esperança de transformação?Significa isto que tenho que fatalmente viver com dor e sofrimento? Significa isto que não compreendi nada? É a mensagem de Krishnamurti uma mensagem gorada ou a sua comunicação tem graves falhas?

Contudo, talvez uma questão mais importante tenha a ver com autoridade e a solidez da nossa própria compreensão dos ensinamentos. Vejo algo claramente ou apenas concordo com Krishnamurti que os ensinamentos são válidos? Se realmente vejo algo claramente, esta passagem não faz diferença. A minha compreensão de divisão, relação, a natureza do tempo e do eu altera-se porque Krishnamurti proferiu aquelas palavras?

Se por exposição aos ensinamentos, advém daí uma real e funda consciência da desordem da mente humana, então a pergunta teórica se a transformação é possível perde o sentido. Não há outra escolha a não ser responder a este descontentamento fundamental continuando a investigação - a urgência da situação exige-o.

Então, se o meu interesse em 'viver os ensinamentos' não for invalidada porque Krishnamurti disse aquelas palavras, como é que eu posso considerar a realidade de que aparentemete 'ninguém mudou' do ponto de vista dos próprios ensinamentos? Mentes com variadas capacidades e disposições, desde o extremamente inteligente até o altamente sensível, investiram muito tempo e esforço nos ensinamentos sem atingirem uma transformação radical.

Parece que é necessário alguma coisa extraordinária, embora não em sentido linear. Não é uma questão de tentar mais ou melhor, mas de fazer algo de forma completamente diferente, não relacionada com alguma coisa tentada anteriormente. De facto, Krishnamurti corrobora isto ele próprio quando fala da necessidade da 'mudança total, completamente radical e revolucionária.'

Algumas vezes, Krishnamurti usa a metáfora de começar 'no outro lado do rio', para sugerir que nós nos voltamos para o que não conhecemos em vez de fazer mais esforço para modificar a nossa compreensão. Ele também se refere a isto como 'o fim do tempo' ou 'a libertação do conhecido' - afirmações enigmáticas quando consideradas isoladamente. O que quer dizer Krishnamurti com 'o conhecido'? Mais do que apenas um reservatório inanimado de conhecimentos, ele usa o termo 'conhecido' para significar a percepção humana, a nossa própria experiência de viver, a totalidade da nossa consciência.

Para Krishnamurti, a consciência da forma como funciona na maior parte de nós é inerentemente corrupta. Esta corrupção básica manifesta-se como conflito humano, quer individualmente, quer colectivamente.

Os ensinamentos perspectivam o conflito comoum factor permanentemente presente na mente e não como algo que intermitentemente sombreia a nossa vida quotidiana. Como Krishnamurti considera, 'não há intervalo' na dor e confusão e 'a nossa vida está sempre nafronteira do sofrimento'. Ao contrário de Krishnamurti, a maior parte de nós toma por garantida a possibilidade da felicidade humana e, como tal, tem uma visão de conflito mais diferenciada. Temos a sensação de que o conflito pode ser negociado, mitigado e, em certas circunstâncias, vencido.

Para Krishnamurti, a base da compreensão errada reside nesta presunção de que o conflito é algo separado de nós, algo que pode ser trabalhado. Onde há divisão, há conflito. Isto é uma lei. Ele defende que enquanto existir divisão entre nós e a nossa experiência, tem que continuar o conflito. O conflito pode gerar muitas coisas; mas não a sua própria resolução.

Externamente, podemos ver que o conflito, da forma que ele se manifesta como guerra, por exemplo, provém de divisões como a nacionalidade, identificação religiosa, etc. Neste domínio, conflito e divisão estão perceptivelmente ligados. Á medida que se torna cada vez mais pessoal, esta clara ligação torna-se menos nítida e eventualmente desaparece de vez. A divisão básica entre 'eu' e a minha experiência não é considerada um factor que provoque conflito. Pelo contrário, sentimos que é esta mesma separação que permite a possibilidade de corrigir. Contudo, o triste facto é que, apesar dos nossos melhores esforços, o conflito persiste dentro e fora.

Krishnamurti nota que lidar com o conflito desta forma pessoal e parcelar, ainda que traga alívio momentâneo, não trata da causa funda do conflito. Perante o limitado sucesso deste ataque directo ao particular, ele sugere que a única coisa a fazer é retroceder e obter uma melhor compreensão sobre como funciona a mente. Com este objectivo, será útil considerar o que acontece quando enfrentamos determinado problema. Em primeiro lugar, identificamos o problema, por exemplo, o medo, o ciúme, a dor, confusão, etc. A isto seguem-se as várias respostas interiores - resistência, justificação, resolução, etc. A todo o tempo, o próprio problema parece flutuar num compartimento impermeável isolando-se das ideias que tenhamos sobre a melhor forma de lidar com ele. Inconscientemente, relegamos o problema para um lugar fora de nós mesmos que nos permita então abordá-lo. Assim, o que falha mesmo é que o problema faz, ele próprio, parte da mente. Como Krishnamurti diz, 'está tudo no mesmo âmbito e ao mesmo nível' - o problema, a compreensão do problema e as reacções a essa compreensão.

O significado desta compreensão é extraordinário. Põe em causa crítica o meu próprio sentido de realidade, nomeadamente, que o 'eu' esteja no centro do meu ser, que as ideias estão na minha cabaça e que os factos estão algures fora.

Vista segundo este prisma, a consciência humana pode ser descrita como um país das maravilhas animado, uma interacção dinâmica de alianças e oposições entre grupos de imagens que mudam constantemente de filiação. Sofrendo os resultados do assalto contínuo na articulação central de imagens a que damos o nome de 'eu'.

Krishnamurti usa o termo transformação para significar o fim do conflito e, não, passar de um estado para outro para ganhar uma experiência mais ampla. Isto pode explicar por que nenhuma quantidade de esforço para executar o que Krishnamurti diz parece 'dar resultado'. Para existir transformação, tem que terminar a experiência. É por não termos posto fim à experiência que continuamos a movermo-nos, a analisar, a falar, lutando para levar a cabo uma mudança experiencial. Do ponto de vista dos ensinamentos, o que não se vê é que os factores que motivam o desejo e o medo estão sempre presentes a acompanhar as expectativas subtis sobre o que irá acontecer quando 'a coisa funciona'.

Krishnamurti sustenta que a mudança radical não pode ser o resultado de compreender primeiro e agir depois a partir dessa compreensão. No campo da experiência, até a compreensão mais lúcida cria forçosamente mais divisão separando-se daquilo que compreende. Acontece então que o fim da experiência não pode surgir por meio da reacção, através da pressão, através de permutas mais inovadoras do pensamento.Por outras palavras, a tranformação não pode ter causa. A questão da transformação torna-se então impossível, não tem resposta.

Os ensinamentos defendem que se nos mantivermos completamente com a impossibilidade de transformação através do conhecido e não nos afastarmos desta crise que haverá o surgimento de uma consciência unificada - uma qualidade humana inata destituida de projectos pessoais - que pode 'ver' as divisões infundadas da mente.

Qualquer questão com o sentido de descobrir um caminho ou um método para terminar com a experiência é uma fuga que ainda fortalece mais a experiência. Não quer isto certamente dizer que tomemos como directiva simplesmente esperar que a transformação aconteça espontaneamente. Esperar, um estado de atitude expectante, continua a linha de tempo e causalidade que é a própria matéria da experiência. 'Quando eu digo: o que é que hei-de fazer entretanto, até que a explosão aconteça, o intervalo entre esse momento e agora, à espera dessa explosão, é uma deterioração.' Não fazer nada não é a mesma coisa que esperar.

De facto, para Krishnamurti, a principal e talvez a única questão é ver a necessidade de não fazer nada, de realmente nos preservarmos daquilo que conhecemos, de termos tempo livre. A beleza do tempo livre deriva da imossibilidade de o cultivar. Ele acontece inobstaculisado quando põe fim a qualquer busca.

Pergunta: 'Parece um paradoxo. A não ser que vejamos, não somos capazes de percepcionar totalmente; vemos verbalmente.'

Krishnamurti: 'Ver verbalmente, ver emocionalmente, ver parcialmente, não vemos. Então? Segue sem descanso, vai até o fim'.

Pergunta: ' Chego ao fim e não existe nada. Não sei o que fazer.'

Krishnamurti: 'Então, não faças nada. Ris-te! Estou a falar muito a sério: não faças nada à excepção das coisas mecânicas. Mas nós estamos sempre a fazer alguma coisa a toda a hora. Não faças nada psicologicamente, interiormente; não faças nada, excepto o que tens de fazer regularmente na vida quotidiana. Já alguma vez o fizeste sem teres saido dos carris e ires para o manicómio? Não é a isso que me refiro; mas, autenticamente, não faças nada, interiormente'. ( Varanasi, India , 1962. 3ª Palestra Pública. Ó Krishamurti Foundation of America)

 

Viagem à Índia

Convite para uma viagem de duas semanas, entre 6 e 22 de Outubro, ao Sul da Índia, com a oportunidade de visitar alguns lugares que figuraram na vida de Krishnamurti. Mergulhe nos ensinamentos de Krishnamurti com uma estadia no Centro de Krishnamurti em Vasanta Vihar onde haverá uma rotina diária de projecções de vídeo e encontros para diálogo. Passeie na praia de Adyar, onde o Krishnamurti menino foi 'descoberto', mesmo junto à sede da Sociedade Teosófica na Índia. Inicie cada dia refrecado com uma aula de yoga no estúdio de yoga de Desikachar. Em tempos, Desikachar deu aulas de yoga a Krishnamurti quando ele permanecia na Índia. Haverá a oportunidade de ver as crianças que vivem e estudam nas escolas vizinhas de Krishnamurti e também pode experimentar a variedade cultural visitando centros de de arte tradicionais que oferecem música local bem como dança, teatro, poesia e arquitectura.

A viagem é fácil e confortável e planeada para pessoas de todas as idades. O acompanhante será André Ruhl que ensinou yoga nas escolas de Krishnamurti ( Brockwood Park e Rishi Valley) e nos encontros de Saanen. Também é o tradutor em francês de 'The Life and Death of Krishnamurti' [A Vida e Morte de Krishnamurti], de Mary Lutyens. Organiza viagens à Índia há quinze anos.

 

 


Anúncios

- Projecção mensal de vídeos ou passagem de DVDs de Krishnamurti na Espiral em Lisboa, seguida de diálogo. Praça Ilha do Faial, 14, r/c - 1000-168 Lisboa

Encontros Krishnamurti Internacionais:

- Nova Zelândia, North Island, Withianga - 2 e 3 de Setembro - o encontro anual de Krishnamurti realizar-se-á num maravilhoso ambiente rural em Whitianga na Península Coromandel em North Island. O apresentador é o Prof. Krishna. Tema: 'O que podemos fazer neste mundo?'

- Tailândia, Centro de Retiros Stream Garden - 4 a 11 de Dezembro de 2006. Temas: 'Qual é a causa original do conflito em nós próprios e na sociedade?' e 'Podemos Viver sem Aquilo nas Nossas Vidas?'. Os diálogos realizar-se-ão em três grupos: um thai, um inglês e um misto com tradução. Em complemento, haverá passagem de DVDs, períodos de silêncio para deliberação, passeios na floresta e possibilidade de nadar no rio.

- Índia, Karnataka, Bangalore - Encontro de jovens - 23 a 31 de Dezembro, 2006. O tema para o encontro deste ano é 'Viver em conjunto com Compaixão e Inteligência'. Haverá actividades como diálogos, vídeos de Krishnamurti, passeios a pé, trabalho artístico, música, exercícios respiratórios, movimento, yoga, etc.

 

 

Ver detalhes destes e outros eventos em www.kinfonet.org - Kinfonet Classifieds

 

© 1998-2006  Krishnamurti Foundation Trust