NÚCLEO CULTURAL KRISHNAMURTI

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MAIO / JUNHO, 2006

 

PERGUNTA DO MÊS

Pergunta do mês

Pergunta: Depois de nos libertarmos de todas as estímulações, sensações, esperanças e crenças, ficamos com a sensação de uma desolação completa. Uma vez que o senhor diz que a pessoa pensante não pode fazer nada em relação a esta desolação, sentimo-nos frustrados. Como é que podemos ultrapassar a desolação sem fazer alguma coisa por isso?

Krishnamurti: Acho que a maior parte de nós sente isso, não acham? Nós livramo-nos conscientemente de crenças, de esperanças, de sensações, porque queremos maiores esperanças, sensações mais estimulantes, crenças mais gratificantes. Não vemos o significado da esperança, da crença, da sensação, como um processo completo; apenas vemos que certas crenças, sensações, esperanças, são fúteis, ocas, sem significado, por isso as pomos de lado, nos livramos delas, ou desligamo-nos de certas sociedades. Ao libertarmo-nos para ganhar mais, a mente fica naturalmente desolada.Continua a actuar dentro do padrão da esperança, da crença e da sensação, por isso, sente-se frustrada; e surge então o problema: como é que me hei-de libertar da frustração? Sem compreender todo o processo da crença, que é o desejo de estar seguro, de estar certo, de se refugiar numa ideia, numa sensação - sem compreender tudo isso, sem aprofundar, ter consciência de todas as suas implicações, nuances, livramo-nos de uma crença para seguirmos outra. Enquanto que, se tivermos consciência de como a mente cria uma crença e se agarra a ela, de como está permanentemente à procura da sensação através da experiência - se virmos o total significado disto - não há nenhum problema de frustração. A mente, então, não é monótona - está alerta, constantemente a observar os seus próprios processos; e como é que tal mente pode ser monótona? Como é que tal mente se pode sentir frustrada? Uma pessoa sente-se frustrada porque se quer realizar com certas sensações, certas crenças, certas esperanças. Onde existe o desejo de realização, existe medo, que é frustração.

No seu desejo de sensação, felicidade, segurança, certeza, a mente cria ao mesmo tempo o medo de elas não existirem. Ao seguir no encalço das suas próprias projecções é apanhada no medo de não se realizar, de não estar segura. É todo este processo que temos que compreender; e a compreensão vem quando temos consciência deste processo, quando o observamos sem julgamento. A mente observa-se em acção, não há tal identidade de nós a observarmos a mente. A mente tem consciência de si própria, de todos os seus pensamentos, das suas buscas escondidas e às claras. Uma tal mente nunca pode ser monótona, porque nunca existe um momento de ter atingido, de sucesso, de conformismo. É só quando a mente se conforma no seu desejo de ter êxito que se torna monótona, cansada. Uma mente que não procura desdobrar-se através da sensação, através de mais experiência, não tem bloqueios, não tem impedimentos que a façam sentir-se frustrada. Se vocês e eu pudermos compreender este processo, se a mente puder ver-se a operar de instante a instante na nossa vida diária, penso que o problema da desolação, da frustração desaparecerá completamente.


- 'Collected Works' [Colectânea], vol. 7, Tradição e Criatividade, USA, Ojai
8ª Palestra Pública, 24 de Agosto, 1952
© Krishnamurti Foundationof America

 

Editorial Kinfonet - Perdido na Tradução
[as expressões em itálico são genuinas de Krishnamurti]

A linguagem de Krishnamurti possui uma intrigante qualidade que é difícil de descrever e ainda mais difícil de imitar. Para tão prolífico orador público, as palavras escolhidas por ele eram notavelmente desprovidas de 'verniz' e de retórica. A sua relação com as palavras e a linguagem era essencialmente de carácter prático. Contudo, no interesse da precisão, de dizer o que precisava de ser dito, ele seleccionava as palavras cuidadosamente. Ele evitava a acumulação de palavras e, de facto, sempre que possível, optava pela simplicidade. E, nas situações em que eram necessários termos mais especializados, ele alongava-se prolongamente a qualificá-los explicitamente de forma a minimizar a disparidade de significados.

Como Krishnamurti se dirigia a uma audiência internacional, em que muita gente não dominava o inglês, era necessário o uso de uma linguagem despretensiosa. Outra razão igualmente discutível e talvez mais importante para que Krishnamurti se abstivesse do uso de uma linguagem mais complexa era ter a consciência do efeito hipnótico das palavras, do seu poder de desviar a atenção da mente e tornar confuso o que está em causa. A tendência de não deixar o modo de expressão interferir na compreensão da mensagem é especialmente evidente nas suas últimas palestras. É amplamente destacado o ênfase que Krishnamurti põe na clareza e é um significativo factor de atracção. Contudo, o que é mais intrigante é o desejo de Krishnamurti de comunicar algo que era paralelo ou estava para além das verdadeiras palavras do seu ensinamento:

'Acho que é sempre difícil comunicar com alguém sobre coisas sérias, e é ainda mais especial nestes encontros onde vocês falam francês e eu, infelizmente, tenho que falar em inglês. Mas acho que seremos capazes de comunicar entre nós de forma suficientemente clara se não permanecermos meramente ao nível verbal. As palavras têm como objectivo comunicar, veicular algo, e as palavras em si próprias não são importantes. Mas, a maior parte de nós, receio, ficam-se pelo nível verbal e, por isso, a comunicação torna-se muito mais difícil, porque aquilo de que queremos falar também é ao nível intelectual e emocional. Queremos comunicar uns com os outros compreensivamente, num todo; e, para isso, precisamos de uma abordagem total - verbalmente, emocionalmente e intelectualmente. Por isso, vamos fazer a viagem juntos, vamos seguir juntos, e olhar para os nossos problemas compreensivamente, embora seja extremamente difícil.'

Nesta passagem, Krishnamurti alude à possibilidade de transmitir alguma coisa em adição à literal mensagem do seu discurso. O que pode ser mais 'essencial' do que a real compreensão verbal daquilo que ele diz? Embora ele caracterize a mera compreensão verbal como incompleta e tendenciosa, é bastante improvável que Krishnamurti, que por rotina descarta tudo o que é pouco claro e não verificável, que aqui esteja a referir-se a algo semelhante a 'intuição'.

O termo 'intuição' é normalmente usado quando não temos consciência da exacta origem de um pensamento ou sentimento. Como tal, é geralmente elevada a um nível que a isola de qualquer interrogação. Para Krishnamurti, nada do que se materializa em consciência como a conhecemos agora - quer seja pensamento, sentimento, pressentimento ou intuição - pode ser seguido, ou é misterioso ou desligado. Ele defende que aquilo que consideramos como sendo não-pensamento, nomeadamente os pensamentos, as emoções, etc, é, de facto, criado pelo valorsensível das palavras. Na sua forma de pensar, 'os sentimentos' são respostas condicionadas a certas palavras- signo.

As palavras têm uma carga negativa ou positiva e, assim, têm o poder de nos afectar nervosamente, sensualmente e até fisicamente. Podemos mesmo dizer que é a linguagem que produz o ambiente fantasmagórico da nossa psique, quer dizer, a sequência de imagens reais ou imaginárias que incluem a nossa experiência consciente. Deste ponto de vista, as emoções são 'indulgência do pensamento' tecendo complexas teias de sentimento a partir dos originais fios do gostar e não gostar. Palavras aparentemente inócuas podem ser responsáveis por nos causarem perturbação e também por nos confortarem; elas podem produzir humores que, por sua vez, influenciam a reacção e determinam a relação.

Krishnamurti censura às vezes a sua audiência por 'meramente ouvir muitas palavras'. O que é surpreendente é que este desafio parece ser dirigido a cada um de nós, incluindo aqueles que examinam criteriosamente e 'compreendem' o que ele diz. 'Não há tal coisa como compreensão intelectual', diz ele, 'vocês apenas querem dizer que ouvem as palavras, que as palavras têm um significado similar ao vosso próprio; e vocês chamam a essa similaridade compreensão, concordância intelectual.'

Em termos gerais, quando confrontada com uma nova ideia, a mente assimila as palavras que ouve e atribui-lhes um 'significado' após tê-lo conferido com a memória. Alguns destes 'significados' ou ´compreensões' acabam por solidificar como o conjunto de representações simbólicas que constituem as nossas ideias ou crenças. Para Krishnamurti, este tipo de compreensão é essencialmente uma forma de imitação - não no sentido de um papaguear indiscriminado, mas antes no sentido de ter como padrão variações do pensamento antes existente. Aquilo a que chamamos compreensão é um processo contínuo de 'recorte e colagem' das nossas próprias ideias à medida que se misturam com as ideias de outros. 'As palavras são imitação, viver ao nível verbal é viver em imitação,' diz Krishnamurti.

Krishnamurti não faz distinção entre respostas emocionais e com base no pensamento - considerando ambas expressões do 'verbal'. Ele não faz concessões quanto à existência de diferentes níveis ou até de diferentes aspectos da consciência. Não é apesar disto, mas antes, por causa disto, que ele fala do completo envolvimento do emocional, intelectual e verbal como uma 'abordagem total' ou holística. Compreender ou actuar 'compreensivamente' neste caso, obviamente que não significa fazer um esforço concertado em ser consumadamente intelectual e emocional ao mesmo tempo. Tal caminho seria, no mínimo, extraordinariamente exaustivo e fútil.Ver a divisão entre pensamento, palavras e sentimentos como imateriais permitir-nos-ia um muito mais simples e mais directo meio de escutar o mundo à nossa volta.

Tendo isto em mente, o que significará não parar na compreensão literal, passar através dela, por assim dizer, para chegar ao âmago da implicação em vez de parar na compreensão intelectual/emocional gratificante? Forçando o invólucro da nossa experiência verbal, não no sentido da expansão mas de ver como realmente é, fará surgir uma compreensão dinâmica em vez de uma 'passiva'. Uma compreensão assim viva morre logo à nascença - a sua própria intensidade não admite qualquer consideração de duração. Em contraste, a forma 'passiva' de compreensão é ela própria motivada pela necessidade de continuidade e como tal retida como uma moralidade de princípios.

'O que o orador diz é irrelevante, mas aquilo que vocês ouvem é relevante.' Isto é bastante perturbador. Krishnamurti parece dizer que as suas palavras, o seu ensinamento é quase acidental. O que é importante é o que realmente acontece na nossa mente quando o escutamos, nomeadamente, o transformarmos em crença, em ideia, em uma posição, qualquer coisa que ouçamos.

Krishnamurti solicita-nos que vejamos como, mesmo enquanto o escutamos, a nossa mente transforma a sua descrição da liberdade numa filosofia de liberdade. Esta pode bem ser a mensagem por detrás da mensagem - que 'deixamos que o nosso julgamento seja pervertido pela autoridade'. Por outras palavras, alertar-nos para quão pouco livres são as nossas mentes. Esta tendência para a ideação opera obviamente em todas as áreas das nossas vidas e não se limita à interpretação das suas palestras. Isso acontece sempre que a percepção fossiliza em crença, uma ideia ou uma compreensão.

'Portanto, temos duplo trabalho - ouvir as palavras e escutar . Esta faculdade de escutar, conforme é descrita por Krishnamurti, não só é capaz de percepcionar o que é retransmitido à superfície, mas pode também revelar o 'resmungar da nossa própriamente, para o nosso próprio coração e para sugestão do nosso próprio inconsciente.'

Krishnamurti realça a ideia que sendo que este 'escutar' leva à manifestação daquilo que somos, não é intencional no sentido de que não procura o benefício de transformar o que nós somos. O pensamento, por outro lado, é utilitário. Um contacto imediato, sem intermediários, com a verdadeira natureza das nossas mentes tem um pronunciado efeito sobre o nosso raciocínio, produzindo uma correcção natural e imediata que pode ser entendida como libertadora. Assim, embora o pensamento possa ser o agente de transformação, nunca pode ser o instigador de transformação. Uma vez tendo começado a lutar pela continuidade deste estado de liberdade, para suprimir voluntariamente a sua própria actividade, reverte ao seu papel de autoridade substituta, que, é claro que é a antítese da liberdade.

A mente mais sofisticada permanece medíocre enquanto estiver inconsciente das suas ligações com a sua própria compreensão. Consideradas em isolado, as palavras de Krishnamurti estão 'dormentes'. É só no despoletar deste 'escutar' em nós que o seu verdadeiro potencial é realizado - a liberdade incondicional do homem pela qual apenas ele falou.

É opinião dos escritores do editorial que Krishnamurti é um exemplo dos nossos dias do ser humano verdadeiramente livre. Estes editoriais reflectem o nosso interesse no homem mais extraordinário e no que ele tem para nos dizer. A intenção aqui não é nem representar nem re-apresentar Krishnamurti, mas simplesmente prosseguir no envolvimento com os seus trabalhos. Desnecessário será dizer que a natureza fascinante e intrincada dos escritos de Krishnamurti exige que sejam lidos cuidadosamente e em primeira-mão.


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Oportunidades de emprego :

- Reino Unido, Inglaterra, Brockwood Park - Consultor de Arquivos - A Krishnamurti Foundation Trust procura no exterior auxílio profissional na revisão do seu Plano de Arquivos a Longo Prazo. Dá-se preferência a consultoria em regime de voluntariado, mas também se aceitará a troco de pagamento.

Reino Unido, Inglaterra, Brockwood Park - à procura de editores para ajudar a editar transcrições das gravações de Krishnamurti. Para além de uma boa compreensão e conhecimento da gramática e língua inglesas como língua-mãe, os candidatos deverão ter um apurado sentido de precisão e, preferivelmente, estarem familiarizados com o discurso de Krishamurti.

Miscelânea

- Reino Unido, Inglaterra, escola de Brockwood Park - Celebração de Verão da escola de Brockwood Park: 24 de Junho, com repetição a 25 de Junho; entre outras coisas: 'A porta que ela escolheu', uma peça escrita, dirigida e representada por alunos de Brockwood e 'mature students'. 2.30pm-4.00pm e o concerto anual de verão seguindo a tradição da maravilhosa música e dança dos alunos e professores de Brockwood 5.30pm - 8.00pm.


Encontros Krishnamurti Internacionais:

- Nova Zelândia, North Island, Withianga - 2 e 3 de Setembro - o encontro anual de Krishnamurti realizar-se-á num maravilhoso ambiente rural em Whitianga na Península Coromandel em North Island. O apresentador é o Prof. Krishna. Tema: 'O que podemos fazer neste mundo?'

- Reino Unido, Inglaterra, Brockwood Park - 4 a 16 de Julho - Diálogos mais Trabalho de Brockwood Park - inquirir interiormente durante doze dias através de trabalho, diálogo, tempo em silêncio, passeios...

- Suiça, Saanen - O encontro Saanen, 2006 terá lugar em Schonried, de 5 a 19 de Agosto. A semana para Pais com Filhos realizar-se-á em Alpenblick em Gstaad de 29 de Julho a 5 de Agosto. Pormenores para estadia e programa do encontro disponível na Kinfonet.

- Suiça, Bourg-St Pierre - o Programa de Montanha para Jovens terá lugar em Bourg-St.Pierre, de 19 a 27 de Agosto, com o tema central 'O que significa viver sã e saudavelmente?'

- Tailândia, Retiro Stream Garden - 7 a 11 de Dezembro de 2006. Temas: 'Qual é a raiz do problema do conflito em nós mesmos e na sociedade?' e 'Poderemos viver sem ele nas nossas vidas?'. Haverá diálogos em três grupos: um thai, um inglês e outro misturado com tradução. A complementar os diálogos, haverá passagem de DVDs de Krishnamurti, períodos de sossego, passeios na floresta e possibilidade de nadar no rio.

 

Ver detalhes destes e outros eventos em www.kinfonet.org

 

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