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NÚCLEO CULTURAL KRISHNAMURTI Boletim 45
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ACTUALIZAÇÃO DA LISTA DE CORREIO
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Amigos, Um ano após o último contacto, é com grande contentamento que voltamos a estar de novo em comunicação convosco. No início do ano, em consequência de alguns acontecimentos internos de grande peso e relevância, informámos que as actividades do NCK iriam ficar suspensas nos meses subsequentes e que voltaríamos no fim do ano com novidades sobre o futuro do trabalho de difusão dos ensinamentos de K. veiculado por este Núcleo. E aqui estamos. Em primeiro lugar, o elemento que restava do grupo fundador do NCK, Joaquim Palma, juntamente com Leonor Serpa Branco e Américo Peças, pessoas que ao longo dos últimos anos acompanharam de muito perto o trabalho que se vinha desenvolvendo, decidiram que fazia todo o sentido dar continuidade ao trabalho de difusão a partir de Évora, iniciando-se, assim, um novo ciclo do NCK, com mudanças que se irão construindo no presente da acção, sempre receptivas a integrar os vários contributos, se sérios e do coração, vindos de onde a vida quiser. É de realçar a intenção de o grupo agora formado continuar a funcionar com base numa informalidade não hierarquizada e sem recurso a uma estrutura rígida. Houve acordo unânime sobre a continuidade da publicação do Boletim, o qual tem sido um excelente veículo de ligação regular com os leitores amigos. As únicas alterações que agora surgem relacionam-se apenas com uma diferente arrumação das várias secções e de um novo aspecto gráfico. Numa linha de acção difusora mais abrangente geograficamente, vamos fazer todos os esforços na ajuda à criação de Centros de Informação K. em várias regiões do país, centros que deverão ter total autonomia de funcionamento e de acção. Esperamos, portanto, a chegada de propostas consistentes nesse sentido. Estamos neste momento a reorganizar o Centro de Documentação do NCK, de modo a servir mais eficazmente quem sinta necessidade de fazer, individualmente ou em grupo, os seus estudos sobre a mensagem de K. Dado que não dispomos de grande espaço nem de recursos humanos suficientes, vamos privilegiar o apoio a grupos de trabalho com dinâmica autónoma que se constituam numa base de real interesse e seriedade. Brevemente daremos informações detalhadas sobre o funcionamento do Centro no que diz respeito ao uso dos vários materiais (requisições, visitas, etc.). É de vital importância a existência de um Centro de Documentação rico em diversidade de materiais e actualizado, pelo que vamos continuar a precisar da preciosa e generosa ajuda de todos. Continuamos muito empenhados na tradução de obras de K. por pensarmos que o livro é ainda um potente veículo de transmissão. Para satisfação de todos nós, temos já a informar que foram publicados no ano 2007 três livros de K., cujos detalhes estão expostos em outra secção deste Boletim. Nesta linha, temos também em preparação uma grande antologia sobre a obra de Krishnamurti, da qual constarão textos temáticos, notas biográficas e imagens, e que estará pronta para impressão, esperamos, dentro de seis meses. Ao longo de vinte e cinco anos o grupo de Évora que fundou e deu corpo ao NCK naturalmente sempre foi recebendo críticas (que ponderava) e elogios (que nunca buscava) com sentido de humildade e de eterno aprender. E se o processo nunca fraquejou foi porque algo de muito especial esteve sempre presente na relação entre as pessoas que o compunham – um espírito de incondicional e profunda amizade. A nova equipa pensa estar em condições de dar continuidade a essa atitude, para que seja possível desenvolver algum trabalho que aponte para a mudança, sabendo e dando a saber que a transformação interior é um caminho que cada um terá de percorrer. Serenamente. * * * ACTUALIZAÇÃO DA LISTA DE CORREIO Nesta nova fase da nossa existência como entidade emissora, necessitamos saber qual é o número exacto de pessoas a quem vamos no futuro enviar o Boletim anual, para que, desse modo, se possam evitar desperdícios e despesas desnecessárias. Ao mesmo tempo, ficam também actualizados os contactos de cada leitor. Assim, agradecemos que, caso esteja interessado(a), nos devolva logo que possível a respectiva folha solta que vai no Boletim. Pode também utilizar o correio electrónico (nucleok@sapo.pt), ou o telefone (266707902), referindo eventuais alterações nos contactos pessoais. Obrigado. * * * Obras de K. publicadas em Portugal em 2007: A VIDA Original: “The Book of Life” Tradução: Ariana Mascarenhas Editora: Editorial Presença Data de public.: Fev. 2007 Este livro é constituído por textos breves extraídos de variadas obras de K na forma de meditações diárias; a sua leitura convida-nos a reflectir de uma forma holística sobre as inúmeras questões do dia a dia dos seres humanos numa perspectiva de transformação e de libertação. SERÁ QUE A HUMANIDADE PODE MUDAR? Original: “Can Humanity Change” Tradução: Dinalivro Editora Editora: Dinalivro Data de public.: Junho 2007 “O conteúdo deste livro consiste numa série de cinco diálogos entre Krishnamurti e um pequeno grupo de monges e mestres budistas, que decorreram em Brockwood Park... A estes diálogos segue-se uma secção mais curta de perguntas e respostas retiradas de diferentes palestras e discussões e versando as várias razões pelas quais nós, seres humanos, não mudamos.” (Do prefácio à edição portuguesa). O SENTIDO DA LIBERDADE Original: “The First and Last Freedom” Tradução: Maria Branco e Joaquim Palma Editora: Editorial Presença Data de public.: Novembro 2007 Este foi o primeiro livro de K., tendo sido publicado em 1954, e é por muitos considerado uma das obras mais marcantes do autor. Consiste numa selecção abrangente de escritos e de conversas gravadas onde se chama a atenção para o facto de que “sem autoconhecimento, aquilo que pensamos não é verdadeiro”. O livro tem prefácio do escritor Aldous Huxley. * * * Só nos tem possível distribuir gratuitamente o Boletim do NCK graças à generosidade de pessoas que compreendem a importância e a urgência dos ensinamentos de J. Krishnamurti. Mas quem não tem possibilidade de contribuir desta maneira, recebe igualmente o Boletim desde que mostre interesse nisso. Para além dos leitores constantes da lista de correio, temos enviado esta publicação a associações de estudantes e de juventude, a organizações ambientais, bibliotecas e outros organismos culturais. Se acha que este Boletim pode ter interesse para amigos, familiares, companheiros de trabalho, poderá pedir-nos o número de exemplares que julgue necessários. De modo a facilitar o envio da ajuda destinada às despesas com o Boletim e à compra de material para o Centro de Documentação, sugerimos que o mesmo seja feito por transferência bancária para a conta da CGD com o NIB 003503400000071873093. A todos os que com os seus donativos, ou por outra forma, têm permitido que a tarefa de difusão dos ensinamentos de K. em língua portuguesa continue, o nosso muito obrigado. Bem hajam. * * * NÃO SEI Se conseguirmos realmente chegar a esse estado de dizer: “Não sei”, isso indica um extraordinário sentido de humildade; não há nenhuma arrogância por se ter conhecimento; nenhuma resposta de afirmação de si mesmo com o intuito de impressionar os outros. Quando vocês puderem realmente dizer: “Não sei”, o que muito poucos conseguem, então, nesse estado, todo o medo desaparece, porque todo o reconhecimento, toda a busca na memória, chegou ao fim; deixa de haver a investigação no campo do conhecido. Então surge esse algo que é extraordinário. Se estiverem a seguir o que eu disse até aqui, não apenas ao nível verbal, mas se estiverem de facto a experimentar o que estou a dizer, vão descobrir que quando são capazes de dizer: “Não sei”, todo o condicionamento chegou ao fim. E qual é então o estado da mente?... Nós procuramos algo permanente – permanente no sentido do tempo, algo que perdure, que seja eterno. Constatamos que tudo em nosso redor é transitório, está de passagem, nasce, floresce e morre, e a nossa busca é sempre para descobrir algo que possa perdurar no campo do conhecido. Mas aquilo que é verdadeiramente sagrado está para além da medida do tempo; não pode ser encontrado dentro do campo do conhecido. O conhecido actua apenas através do pensamento, que é a resposta da memória ao desafio. Se eu for capaz de observar isso e quiser descobrir como posso terminar o processo do pensamento, como posso fazê-lo? Certamente deverei, por meio do autoconhecimento, estar atento a todo o processo do meu pensamento. Devo ser capaz de ver que cada pensamento, por mais subtil ou elevado, ignóbil ou estúpido, tem as suas raízes no conhecido, na memória. Se eu for capaz de ver isso com muita clareza, então a mente, quando confrontada com um imenso problema, é capaz de dizer: “Não sei”, porque ela não tem qualquer resposta. in “The Book of Life” * * * Questionador: Um relacionamento, em qualquer situação, é apenas uma coisa secundária – percepção profunda é, por definição, ela mesma. Se falarmos da educação ser basicamente autoconhecimento, então uma comunidade, uma relação revelarão isso; mas o indivíduo tem de ver por ele próprio – isso será a fonte, que brota de dentro, não de fora. KRISHNAMURTI: Compreendo tudo isso. Estou a tentar encontrar algo mais. Um estudante chega aqui, terrivelmente condicionado, ou com a família desfeita – e outras coisas mais. E, como professor, também aqui chego condicionado. Estou a aprender sobre mim mesmo, estou a ajudar no relacionamento com os outros, estou tranquilo. Estou a descondicionar-me, e o outro também, na nossa relação. Conhecemos isso, já falámos, percebemos essas coisas. Mas, agora, pergunto a mim mesmo: Haverá um modo de proceder que, realmente, leve à germinação da semente na pessoa, de modo natural? Questionador: O que está a tentar dizer é: “Haverá um caminho que uma pessoa não possa dizer por outro, embora essa pessoa nos possa mostrá-lo?” É isto? KRISHNAMURTI: Não é bem assim. Seremos capazes de originar um milagre? Questionador: Essa é a questão. KRISHNAMURTI: Espere – está a perceber? Questionador: Queremos originar um milagre? Ou nós... KRISHNAMURTI: Penso que ambas as coisas estão envolvidas – um milagre é também necessário. Percebe o que quero dizer com “milagre”? Não é nada que tenha a ver com Lurdes. Questionador: Está a dizer: se a semente está lá, como uma semente na terra, e as condições forem adequadas, ela brotará? KRISHNAMURTI: Não desse modo. Sabemos que o jovem, tal como o professor, chega aqui condicionado e tem de aprender a descondicionar-se a si próprio; este descondicionamento abrange o lado académico, o comportamento e também a visão do todo, tudo a fluir ao mesmo tempo. É isto que tenho de fazer entender ao estudante e, nesse acto, também estou a aprender a viver desse modo. Mas isso demora muito tempo. Então, digo para mim: “Tem de acontecer um milagre, para que haja uma mudança instantânea”. Pode ser que as duas coisas juntas sejam necessárias: o milagre e a outra parte. Seremos capazes de criar isso? Penso que sim. E, portanto, como se acabou de dizer, se formos equilibrados, sérios – o que quer dizer, não sentimentais, não verbais, não idealistas, mas factuais – e se assim procedermos, então o milagre acontece. Questionador: Isso é meio milagre, não é? KRISHNAMURTI: Sim, senhor. Penso que é isso que aqui é necessário – um milagre, nesse sentido. E só acontecerá se formos extremamente sérios e factuais. Seremos capazes de transmitir ao estudante apenas factos? – e nunca o ideal, nunca aquilo que “deveria ser”. Penso que, então, o milagre acontece. Todos crescemos de acordo com “o que deveria ser”, com ideais, num caminho com uma maneira sentimentalista de viver, e estes rapazes e raparigas também estão habituados a isso. Eles enfrentam os factos por pouco tempo, voltando depois ao sentimentalismo; poderemos nós fazer-lhes ver que esse é um campo a evitar? Questionador: Isso quer dizer que, como comunidade, devemos pôr de lado tudo o que não é factual, caso contrário, a nossa relação é uma constante interpretação docomportamento dos outros, em vez de ser um acto de autêntica e profunda compreensão. KRISHNAMURTI: sim, absolutamente. In “Beginnings of Learning” * * * ORDEM E CRIAÇÃOQual é a origem de toda a existência, desde a mais minúscula célula até ao cérebro mais complexo? Será que houve mesmo um princípio, e haverá um final para tudo isto? O que é Criação? Para se penetrar em algo completamente desconhecido, não préconcebido, sem se ficar prisioneiro de qualquer ilusão sentimental e romântica, tem de haver um cérebro que esteja totalmente liberto de todo o seu condicionamento, de toda a sua programação, de toda a espécie de influência e, portanto, altamente sensível e activo. Será isto possível? Será possível ter uma mente, um cérebro extraordinariamente vivo, não aprisionado em qualquer forma de rotina, não mecânico? Será que temos um cérebro em que não há medo, nem actividade egocêntrica? De outro modo, ele vive sempre na sua própria sombra, vive no seu próprio ambiente tribal, limitado, como um animal atado a uma estaca. O cérebro tem de ter espaço. Espaço não é apenas a distância entre um ponto e outro, espaço implica não ter um centro. Se temos um centro e nos movemos desse centro para a periferia, por muito longe que ela esteja, isso é ainda limitado. Assim, espaço indica a não existência de centro, de periferia ou de fronteira. Teremos nós um cérebro que não pertence a nada, que não está apegado a coisa alguma – experiência, conclusões, desejos, ideais – para que seja realmente, completamente livre? Se carregamos fardos, não podemos ir muito longe. Se o cérebro está em bruto, se é vulgar, egocêntrico, não pode ter espaço imenso. E o espaço indica – e usamos a palavra com muito cuidado – o vazio. Estamos a tentar descobrir se é possível viver neste mundo sem medo algum, sem qualquer conflito, com um grande sentido de compaixão, de amor, o que exige muita inteligência. E essa inteligência não é a actividade do pensamento. Não podemos sentir compaixão se estamos apegados a uma ideologia particular, a um tribalismo estreito, ou a um determinado conceito religioso, porque tudo isto é limitador. E a compaixão só acontece – só existe – quando há o findar do sofrimento psicológico, que é o cessar do movimento egocêntrico. Portanto, espaço indica vazio, nada. E porque não há nada posto lá pelo pensamento, esse espaço tem enorme energia. Assim, o cérebro tem de ter a qualidade de total liberdade e espaço. Isto é, temos de ser nada. Todos somos qualquer coisa: analistas, psicoterapeutas, doutores. Isso está certo, mas quando somos apenas terapeutas, biólogos, técnicos, estas mesmas identificações limitam a totalidade do cérebro. Só quando há liberdade e espaço podemos perguntar o que é a meditação. Só quando construímos os alicerces da ordem na nossa vida, estamos aptos a perguntar o que é a verdadeira meditação. Não pode haver ordem se há medo. Não pode haver ordem se houver qualquer género de conflito. A nossa casa interior deve estar em ordem completa; só então há uma grande estabilidade, sem confusão à volta. Há uma grande força nessa estabilidade. Se a casa não está em ordem, a nossa meditação tem pouco significado. Podemos inventar qualquer ilusão, qualquer espécie de “iluminação”, qualquer tipo de disciplina diária, isso continua a ser limitado, ilusório, porque nasce da desordem. Tudo isto é lógico, sensato, racional; não é nada que este orador tenha inventado para se aceitar. Posso usar as palavras ordem indisciplinada? A não ser que haja ordem que não é ordem “disciplinada”, a meditação torna-se muito superficial e sem sentido. O que é ordem? O pensamento não é capaz de criar ordem psicológica porque ele próprio é desordem, porque se baseia nos conhecimentos adquiridos, os quais assentam sobre a experiência. Todo o conhecimento adquirido é limitado, portanto, o pensamento também o é, e quando o pensamento tenta criar ordem, ele origina desordem. O pensamento cria desordem através do conflito entre o que é e “o que devia ser”, entre o real e o teórico. Mas apenas existe o real, e não o teórico. O pensamento olha para o real a partir de um ponto de vista limitado, portanto, a sua acção gera inevitavelmente desordem. Será que vemos isto como uma verdade, uma lei, ou apenas como uma ideia? Suponhamos que sou ambicioso, invejoso, isto é o que é; o oposto não existe. Mas o oposto é criado pelos seres humanos, pelo pensamento, como um meio de perceberem o que é, e também como um meio para escaparem ao que é. Mas apenas há o que é, e quando vemos o que é sem o seu oposto, então essa mesma percepção traz ordem. A nossa casa tem de estar em ordem, e esta ordem não pode ser produzida pelo pensamento. O pensamento cria a sua própria disciplina: faz isto, não faças aquilo; segue isto, não sigas aquilo, sê tradicionalista, não sejas tradicionalista. O pensamento é o guia através do qual esperamos conseguir ordem, mas o pensamento, ele próprio, é limitado, portanto, é levado a criar desordem. Se eu continuar a repetir que sou Inglês, ou Francês, ou Hindu, ou Budista, esse tribalismo é muito limitado e causador de grande caos no mundo: não vamos às raízes desse tribalismo, para acabarmos com ele; tentamos, sim, fazer guerras mais eficazes. A ordem apenas pode acontecer quando o pensamento, que é necessário em certas áreas, não tem lugar no mundo psicológico. Esse mundo fica em ordem quando o pensamento está ausente. É necessário ter um cérebro absolutamente tranquilo. O cérebro tem o seu próprio ritmo, está continuamente activo, sempre falando disto e daquilo, passando de um pensamento para outro, de uma associação para outra, de um estado para outro. Está constantemente ocupado. De um modo geral, não se tem consciência dessa ocupação, mas quando temos uma percepção sem escolha desse movimento, então, essa mesma percepção, essa mesma atenção, acaba com a tagarelice. Façamos isto, e veremos como é simples. O cérebro precisa de ser livre, de ter espaço e silêncio psicológico. Vós e eu estamos a falar um com o outro. O pensamento está a ser empregue porque estamos usando uma Língua. Mas falar a partir do silêncio... Temos de nos libertar da palavra. Então, o cérebro está completamente silencioso, embora mantenha o seu próprio ritmo. O que é criação? Como começou tudo? Estamos a investigar a origem da vida toda, não apenas da nossa existência pessoal, mas da existência de cada ser vivo: das baleias na profundeza dos mares, dos golfinhos, dos peixes pequenos, das células mais minúsculas, da Natureza imensa, da beleza do tigre. Desde a mais pequena célula até à complexidade humana – com todas a suas invenções, ilusões, superstições, antagonismos, guerras, com a sua arrogância, vulgaridade, as suas enormes aspirações e grandes frustrações – qual é a origem de tudo isto? E é aqui que deparamos com a meditação. Não somos nós que o vamos descobrir. Nesse silêncio, nessa quietude, nessa tranquilidade absoluta, haverá um começo? Se há um começo, então tem de haver um findar. Tudo o que tem uma causa tem de findar. É uma lei natural. Portanto, haverá mesmo uma causa para a criação do homem, para a criação de todos os modos que a vida assume? Terá havido um início para tudo isto? Como é que vamos descobrir? O que é criação? Não a do pintor, nem a do poeta, nem a do escultor que faz qualquer coisa a partir do mármore; estas são coisas exteriorizadas. Haverá algo que não é manifestado? Haverá algo que, por não ser manifestado, não tem princípio nem fim? Tudo o que se manifesta tem um princípio e um fim. Nós somos manifestações. Não de algo divino ou de outra coisa qualquer, somos o produto de milhares de anos da chamada evolução, crescimento, desenvolvimento, e também nós vamos ter um fim. Tudo o que é manifestado pode sempre ser destruído, mas aquilo que o não é, não tem tempo. Perguntamos se há algo para além do tempo. Esta tem sido uma pesquisa de filósofos, cientistas e pessoas religiosas – descobrir aquilo que está para além da medida do homem, que está para além do tempo. Porque se o descobrirmos, ou o virmos, é isso a imortalidade. Aquilo está para além da morte. O homem sempre o tem procurado, de várias formas, em várias partes do mundo, através de diferentes crenças; quando se descobre e compreende isso, então a vida não tem princípio nem fim – está para além de todos os conceitos, de toda a esperança. É algo imenso. Agora voltemos à terra. Nunca olhamos para a vida, para a nossa própria vida, como um enorme movimento de grande profundidade e vastidão. Reduzimos a nossa existência a uma coisa pequena e sem interesse. E a vida é de facto a coisa mais sagrada que existe. Matar alguém é o acto mais irreligioso e horroroso, ou odiar alguém, ou ser violento com alguém. Nunca vemos o mundo como um todo porque somos muitos fragmentados, terrivelmente limitados e mesquinhos. Nunca temos o sentido do todo, em que as coisas do mar, da terra, da Natureza, do céu, do universo fazem parte de nós. Não em imaginação – podemos mergulhar em qualquer espécie de fantasia e imaginarmos que somos o universo e tornarmo-nos mentalmente desequilibrados. Temos de deitar abaixo este mesquinho interesse egocêntrico e ficarmos limpos disso, e a partir daí podemos avançar infinitamente. E meditação é isto, e não é sentarmo-nos de pernas cruzadas, ou pormo-nos de cabeça para baixo, ou o que quer que seja, mas sim sentir a totalidade e a unidade da vida. E isso só acontece quando há compaixão, amor. Uma das nossas dificuldades é a de associarmos o amor com o prazer e o sexo, e para a maior parte de nós o amor também significa ciúme, ansiedade, possessividade, apego. É a isto que chamamos amor. Mas o amor é apego? O amor é prazer? O amor é desejo? Amor é o oposto de ódio? Se assim for, então não é amor. Todos os opostos contêm os seus próprios opostos. Quando tento “tornar-me” corajoso, essa coragem nasce do medo. O amor não pode ter oposto. Não pode haver amor onde há ciúme, ambição, agressividade. Onde há amor, daí nasce a compaixão. Onde há essa compaixão, há inteligência – não a “inteligência” do egocentrismo, ou a “inteligência” do pensamento, ou a “inteligência” de uma grande quantidade de conhecimentos. A compaixão não tem nada a ver com conhecimentos adquiridos. Essa inteligência que dá à humanidade segurança, estabilidade e uma grande energia, só existe quando há amor. in “This Light in Oneself” * * * O estado de ver é mais importante do que aquilo que é visto. Estarmos atentos ao passado nessa observação sem escolha é não apenas actuarmos de um modo diferente, mas sermos diferentes. Nessa atenção a memória actua sem impedimentos e com eficiência. Ser religioso é um estado de atenção sem escolha; e então há libertação em relação ao conhecido até mesmo quando o conhecido está a actuar naquilo que tem de fazer. in “The Urgence of Change” * * * Interlocutor: O senhor é louco? Krishnamurti: Está a perguntar ao “orador” se ele é louco? Muito bem. Que entende pela palavra “louco”? – uma pessoa desequilibrada, mentalmente doente, com ideias peculiares, neuróticas? Tudo isso está implicado na palavra “louco”. Quem é o juiz – o senhor, eu, ou outro qualquer? Será que o louco pode avaliar quem é louco e quem não o é? Se se julga o “orador” para determinar se ele é equilibrado ou desequilibrado, o julgar não fará parte da loucura do mundo – julgar uma pessoa sem nada dela conhecer, excepto a sua reputação, a imagem que dela se tem? Se se julga a pessoa de acordo com a sua reputação e a propaganda que se absorveu, é-se então capaz de julgar? Esse julgar implica vaidade; quer aquele que julga seja neurótico, quer não seja, há sempre vaidade. E poderá a vaidade perceber o que é verdadeiro? Ou precisamos de grande humildade para podermos ver, compreender, amar? Uma das coisas mais difíceis é ser mentalmente são, equilibrado, neste mundo anormal, insano, desequilibrado. Sanidade mental implica não estar prisioneiro de ilusões, não ter nenhuma imagem de si próprio ou de outrem. Se digo “sou isto, sou aquilo, sou grande, sou mesquinho, sou bom, sou nobre” – todos esses epítetos são imagens que tenho de mim mesmo. Quando uma pessoa fica mentalmente desequilibrada, vive num mundo de ilusão. E receio ser isso o que se passa com quase todos nós. Quando chamais a vós próprios “holandeses” – desculpai-me dizer-vos isto – não estais perfeitamente equilibrados. Estais a separar-vos, a isolar-vos, como outros o fazem ao denominarem-se hindus (por exemplo). Essas divisões nacionalistas, religiosas, etc., com os seus exércitos, os seus sacerdotes, indicam um estado de insanidade mental. in “The Flight of the Eagle” * * * A dignidade é algo muito raro. Um cargo ou uma posição de respeito dá “dignidade”. É como vestir um casaco. O casaco, o que se veste, dá “dignidade”. Um título ou uma posição dão “dignidade”. Mas se aos homens forem retiradas essas coisas, muito poucos ficarão com aquela qualidade de dignidade que vem com a liberdade interior de ser nada. O homem anseia ser algo, e esse algo confere-lhe uma posição na sociedade, posição que esta respeita. O homem coloca-se vulgarmente dentro de categorias – ser-se astuto, rico, santo, médico; mas se ele não se colocar dentro de uma categoria que a sociedade reconheça, é tido como uma pessoa esquisita. A dignidade não pode ser possuída nem cultivada, e estarmos convencidos de que somos “respeitados” é estarmos centrados em nós mesmos, o que é algo insignificante, pequeno. Ser nada é estar-se livre dessa ideia. Ser – não dentro de um qualquer estado particular – é a verdadeira dignidade. Ela não pode ser afastada, está sempre lá. Permitir o livre fluxo da vida, sem deixar sobrar nenhum resíduo, é verdadeira atenção. A mente humana é como uma peneira que segura algumas coisas e deixa outras passarem. O que ela segura é do tamanho dos seus próprios desejos; e os desejos, mesmo que profundos, vastos, nobres, são afinal pequenos, medíocres, pois o desejo é uma coisa da mente. Não reter, mas ter a liberdade de deixar a vida fluir sem impedimentos, sem escolha, é atenção completa. Estamos sempre a escolher, ou a segurar, escolhendo as coisas que pensamos ter significado e continuamente nos prendemos a elas. Chamamos a isso “experiência”, e à multiplicação das experiências chamamos “riqueza da vida”. A verdadeira riqueza da vida é libertarmo-nos da acumulação de experiências. A experiência que permanece, que é retida, impede o estado no qual o conhecido não existe. O conhecido não é o tesouro, mas a mente apega-se a ele e, assim, destrói ou corrompe o desconhecido. A vida é uma coisa estranha. Feliz é o homem que é nada. in “Letters to a Young Friend” * * * LIVROS DE K. TRADUZIDOS E PUBLICADOS EM PORTUGAL O MUNDO SOMOS NÓS – Editora Livros Horizonte CARTAS ÀS ESCOLAS – Editora Livros Horizonte O DESPERTAR DA SENSIBILIDADE – Editorial Estampa O VOO DA ÁGUIA – Editorial Estampa A TRANSFORMAÇÃO DO HOMEM – Edições Itau (esgotado) MEDITAÇÕES – Editorial Presença APRENDER A VIVER – Livros de Vida Editores MEDITAÇÃO-A LUZ DENTRO DE NÓS – Editora Dinalivro A VIDA – Editorial Presença SERÁ QUE A HUMANIDADE PODE MUDAR? – Editora Dinalivro O SENTIDO DA LIBERDADE – Editorial Presença Contactos das Editoras: Editora Livros Horizonte - Rua das Chagas, 17, 1º, 1200-106 LISBOA; telef.213466917; www.livroshorizonte.pt; livroshorizonte@mail.telepac.pt Editorial Estampa - Rua da Escola do Exército, 9, r/c Dto., 1169- 090 LISBOA; telef.213555663; www.estampa.pt; estampa@estampa.pt Editorial Presença - Estrada das Palmeiras, 59, Queluz de Baixo, 2730-132 BARCARENA; telef.214347000 ; www.presenca.pt; info@presenca.pt Livros de Vida Editores – R.. Francisco Lyon de Castro, Apartado 8, 2725-354 MEM MARTINS; www.europa-america.pt; secretariado@europa-america.pt Editora Dinalivro - Rua João Ortigão Ramos, 17º, 1500-362 LISBOA; telef. 217122210; www.dinalivro.pt ; info@dinalivro.pt Os livros poderão ser encontrados em qualquer boa livraria ou encomendados às respectivas Editoras. * * * ESCOLAS KRISHNAMURTIÍNDIA RISHI VALLEY EDUCATION CENTRE Internato Idades 9 a 18 RAJGHAT EDUCATION CENTRE Internato Idades 7 a 18 Escola feminina 19 a 21 THE SCHOOL – KFI Escola de Dia Idades 4 a 18 THE VALLEY SCHOOL Escola de Dia e Internato Idades 6 a 18 BAL-ANAND Escola de Tempos Livres para crianças SAHYADRI SCHOOL Internato Idades a partir dos 9 anos INGLATERRA BROCKWOOD PARK SCHOOL Internato Idades a partir dos 14 anos Escola de Dia a partir dos 5 anos E.U.A. THE OAK GROVE SCHOOL Esc. de Dia-Idad. 3/5 a 19 Internato-Idades 10 a 19 Os contactos serão fornecidos a pedido dos interessados. * * * * * |
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