NÚCLEO CULTURAL KRISHNAMURTI

Boletim 44

 

A ACTIVIDADE EGOCÊNTRICA

ENERGIA CRIADORA

SOBRE A CRENÇA

ACÇÃO SEM REACÇÃO

INFORMAÇÕES

 

A ACTIVIDADE EGOCÊNTRICA

QUASE TODOS NÓS se apercebem de que todas as formas de persuasão, todas as espécies de estímulos nos têm sido oferecidos para resistir às actividades egocêntricas. As religiões, por meio de promessas, por meio do medo do inferno, através de todas as formas de condenação, têm tentado diferentes maneiras de dissuadir as pessoas desta constante actividade que nasce do centro do “eu”. Como estas não deram resultado, as organizações políticas chamaram isso a seu cargo. E de novo tentaram persuadir as pessoas; aí residia a última esperança da utopia.

Todas as formas de legislação, das mais limitadas às mais extremas, incluindo campos de concentração, têm sido usadas e postas em vigor contra todas as formas de resistência. Apesar disso continuamos na nossa actividade egocêntrica – a única espécie de acção que parecemos conhecer. Se pensarmos de facto sobre isto tentamos modificar-nos; se damos conta dessa actividade, tentamos mudar essa tendência, mas fundamentalmente, profundamente, não há qualquer transformação, não há um findar radical dessa actividade. As pessoas sérias apercebem-se disto e também se apercebem de que só quando cessa essa actividade do centro, e só então, pode haver felicidade.

Quase todos nós não têm dúvidas de que a actividade egocêntrica é natural e que a acção que dela resulta, e que é inevitável, só pode ser modificada, moldada e controlada. Ora, aqueles que são um pouco mais sérios, mais reflectidos, e não digo sérios – porque (pensam) que a “sinceridade” é o caminho da auto-ilusão – têm de descobrir, dando-se conta deste extraordinário processo total da actividade egocêntrica, se poderemos transcendê-la.

Para compreendermos o que é esta actividade egocêntrica, obviamente temos de a examinar, de a olhar, temos de aperceber-nos do processo total. Se formos capazes de nos apercebermos dela, há então a possibilidade de a dissolver; mas aperceber-nos dela requer uma certa compreensão, uma certa intenção de a encarar como ela é, sem interpretar, sem modificar, sem a condenar. Temos de dar-nos conta do que estamos a fazer com toda a actividade que brota desse estado egocêntrico; temos de estar conscientes dela. Uma das nossas primeiras dificuldades é que no momento em que estamos conscientes dessa actividade, queremos moldá-la, controlá-la, queremos condená-la ou modificá-la, assim raramente somos capazes de a olhar directamente. E quando alguns de nós o fazem, muito poucos são capazes de saber o que fazer.

Compreendemos que essas actividades egocêntricas são prejudiciais, destrutivas, e que todas as formas de identificação – com um país, com um grupo determinado, com um desejo particular, a busca de um resultado nesta vida ou depois da morte, a glorificação de uma ideia, seguir um exemplo, cultivar a “virtude”, etc. – é essencialmente a actividade de uma pessoa egocêntrica. Toda a nossa relação com a natureza, com as pessoas, com as ideias, são resultado dessa actividade. Sabendo isto, o que se há-de fazer? Toda essa actividade deve espontaneamente terminar – não de modo auto-imposto, não influenciado, não guiado por alguém.

Quase todos têm consciência de que esta actividade egocêntrica cria malefícios e caos, mas só estamos conscientes disso em certas direcções. Ou o observamos nos outros e ignoramos as nossas próprias actividades, ou apercebendo-nos, na relação com os outros, da nossa própria actividade egocêntrica, queremos transformá-la, queremos encontrar um substituto, queremos transcendê-la. Antes de podermos lidar com ela, precisamos de saber como nasce este processo. Para compreendermos alguma coisa temos de ser capazes de a olhar; e para a olhar precisamos de conhecer as suas próprias actividades em diferentes níveis, tanto conscientes como inconscientes – as directivas conscientes e também os movimentos egocêntricos dos nossos motivos e intenções inconscientes.

Só estou consciente desta actividade do “eu” quando estou em oposição, quando a consciência é contrariada, quando o “eu” está desejoso de alcançar um resultado. Não é assim? Ou, então, estou consciente desse centro quando o prazer chega ao fim e desejo ter mais prazer; então, há resistência e um propositado moldar da mente para um fim determinado que me dará satisfação; apercebo-me de mim mesmo e das minhas actividades quando quero “vir a ser” virtuoso conscientemente. É evidente que uma pessoa que quer tornar-se “virtuoso” conscientemente não é virtuosa. Não podemos cultivar a humildade, e essa é a beleza da humildade.

Este processo egocêntrico é resultante do tempo. Enquanto este centro de actividade existe, em qualquer direcção, consciente ou inconsciente, há o movimento do tempo (psicológico) e eu estou consciente do passado e do presente, em conjunção com o futuro. A actividade egocêntrica do “eu” é um processo de tempo. É a memória que dá continuidade à actividade do centro, que é o “eu”. Se nos observarmos a nós mesmos e nos apercebermos deste centro de actividade, veremos que ele é só o processo do tempo, da memória, de experienciar e traduzir todas as experiências de acordo com a memória; veremos também que essa actividade do “eu” é (re)conhecimento, o qual é igualmente um processo da mente.

Será que a mente será capaz de ficar liberta de tudo isto? Talvez seja possível em raros momentos; pode acontecer a quase todos nós quando realizamos um acto inconsciente, não intencional, sem um objectivo determinado. Mas será possível para a mente estar sempre completamente livre da actividade egocêntrica? É uma pergunta importante a fazer a nós mesmos porque nesse próprio perguntar, encontraremos a resposta. Se nos dermos conta do processo total desta actividade egocêntrica, conhecendo completamente as suas actividades nos vários níveis da nossa consciência, então teremos sem dúvida de perguntar a nós próprios se é possível essa actividade terminar. Será possível não pensar em termos de tempo, não pensar em termos do que serei, do que tenho sido, do que sou? Porque é de um tal pensamento que todo o processo da actividade egocêntrica começa; aí também se inicia a determinação de “vir a ser”, a determinação de escolher e de evitar, que são todas, um processo de tempo. E percebemos nesse processo infinitos malefícios, infelicidade, confusão, deformação, deterioração.

O processo do tempo não é revolucionário, seguramente. Neste processo não há transformação; só há continuidade e não tem fim – apenas há (re)conhecimento. Só quando temos o completo cessar do processo do tempo, da actividade do “eu”, há uma revolução, uma transformação, o nascimento do novo.

Apercebendo-nos da totalidade deste processo do “eu” na sua actividade, que pode a mente fazer? Só com a renovação, só com uma revolução – e não por meio da evolução, não através do vir a ser do “eu”, mas através do completo findar do “eu” – é que o novo existe. O processo do tempo não pode trazer o novo; o tempo não é o modo de criar. Não sei se alguns de vós tivestes um momento de criatividade. Não estou a falar de pôr alguma visão em acção; quero referir-me àquele momento de criar, quando não existe (re)conhecimento. Nesse momento, há aquele estado extraordinário no qual o “eu”, como uma actividade por meio do (re)conhecimento, cessou. Se nos apercebermos disso, veremos que nesse estado não existe um experienciador que se recorda, que traduz, que (re)conhece e depois identifica; não há nenhum processo de pensamento, o qual faz parte do tempo. Nesse estado de criação, de criatividade do novo, que é sem tempo, não existe nenhuma acção do “eu”.

A nossa questão, seguramente é: será possível a mente encontrar-se neste estado, não em raros momentos, mas – e eu preferia não usar as palavras “eternamente” ou “para sempre”, porque isso implicaria tempo – mas existir nesse estado sem relação com o tempo? Esta é seguramente uma descoberta a ser feita por cada um de nós, porque essa é a porta para o Amor; todas as outras portas são actividades do “eu”. E onde existe acção do “eu”, não há Amor. O Amor não tem nada a ver com o tempo. Não podemos “praticar” o Amor. Se o fizermos trata-se então de uma actividade autoconsciente do “eu”, que espera, por meio desse “amar” obter um resultado. O Amor não pertence ao tempo; não podemos encontrá-lo por meio de qualquer esforço consciente, por meio de qualquer disciplina, por meio da identificação – tudo isto faz parte do processo do tempo. Como a mente só conhece o processo do tempo, não é capaz de reconhecer o Amor. Só o Amor é sempre novo. Uma vez que quase todos nós têm cultivado a mente, que é resultado do tempo, não sabem o que é o Amor. Falamos sobre o Amor; dizemos que amamos as pessoas, que amamos os nossos filhos, a nossa esposa, o nosso vizinho, que amamos a natureza; mas no momento em que estamos conscientes de que amamos, a actividade egocêntrica surge; portanto deixa de ser Amor.

Este processo total da mente é para ser compreendido apenas através da relação – relação com a natureza, com as pessoas, com todas as nossas projecções, com todas as coisas à nossa volta. A vida não é nada a não ser relação. Embora possamos tentar isolar-nos da relação, não podemos existir sem ela. Mesmo que a relação seja penosa, não podemos fugir, por meio do isolamento, tornando-nos um eremita, etc. Todos estes métodos são indicações da actividade do “eu”.

Vendo todo este quadro, apercebendo-nos de todo o processo do tempo como consciência, sem qualquer escolha, sem qualquer intenção determinada, sem um objectivo, sem o desejo de qualquer resultado, constataremos que este processo de tempo chega ao fim automaticamente; de forma não induzida, não como um resultado do desejo. Só quando esse processo acaba é que há Amor, o qual é eternamente novo.

Não precisamos de procurar a Verdade. A Verdade não está longe. Ela é a verdade acerca da mente – a verdade acerca das suas actividades, de momento a momento. Se nos apercebemos da verdade deste momento-a-momento, deste processo do tempo no seu todo, esse percebimento liberta a consciência ou a energia que é inteligência, Amor. Enquanto a mente usa a consciência como actividade egocêntrica, o tempo tem de existir, com todas as suas tristezas, com todos os seus conflitos, aflições, os seus malefícios e as suas ilusões. Só quando a mente, compreendendo este processo total, cessa, é que pode surgir o Amor.

in A Primeira e Última Liberdade

 

ENERGIA CRIADORA

Divididos como estamos pelo conflito, de um modo geral acabamos por cair no sofrimento, na confusão e, portanto, ficamos com pouca energia interior. Mas logo após a mente se ter esvaziado de todo o conflito, por ter compreendido todo o processo do pensar, da ideação, do cultivo de conceitos, de ideais, desse vazio surge uma energia que actua de instante a instante, e a mente pode, assim, tudo fazer sem se frustrar, sem medo. Só então existe a verdadeira paz interior. Não é uma paz “produzida”. A paz que é produzida, que vem da disciplina, é algo sem vida, e é por isso que muitas das pessoas “religiosas” estão interiormente mortas.

Quando não há nenhum conflito interior, devido à mente se ter compreendido a si mesma, surge aquela energia que já não busca experiência, que está além de toda a experiência. Estando vazia, essa mente mantém-se consciente; nela não há cantos obscuros, nem regiões desconhecidas; está inteiramente viva, vigilante. Se chegarmos até aí, descobriremos por nós mesmos que o tempo perdeu todo o seu significado; só então compreenderemos aquilo que está para além das palavras, dos símbolos e do pensamento.

Saanen, Julho 29, 1962

 

SOBRE A CRENÇA

Pergunta : Acreditar em Deus tem sido um poderoso incentivo para melhorar a vida. O senhor rejeita Deus, porquê? Por que não tenta restabelecer a fé do homem na ideia de Deus?

Krishnamurti : Olhemos para o problema de um modo aberto e inteligente. Eu não rejeito Deus – isso seria demasiado estúpido. Só o homem que não conhece a realidade utiliza palavras sem significado. Aquele que diz que sabe, não sabe; aquele que experiencia a realidade a todo o momento não tem meios para comunicar essa realidade.

A crença é a negação da Verdade; a crença impede a Verdade; acreditar em Deus é não encontrar Deus. Nem o crente nem o não-crente encontram Deus; porque a Verdade é o desconhecido, e acreditar ou não no desconhecido é uma simples projecção pessoal e portanto não é real. Sei que você é crente, e sei também que isso tem pouco significado na sua vida. Há muita gente crente; milhões acreditam em Deus e nisso obtêm consolo. Primeiro que tudo, por que é crente? É crente porque isso lhe dá satisfação, consolo, esperança e, como você afirma, dá significado à vida. De facto, o seu acreditar tem muito pouco significado, porque acredita e explora os outros, acredita e mata, acredita num Deus universal e aceita que os homens se matem uns aos outros. O homem rico também acredita em Deus, ele explora sem piedade, acumula riqueza, e depois constrói um templo ou torna-se filantropo.

Os homens que largaram a bomba atómica em Hiroshima disseram que Deus estava com eles; aqueles que voaram de Inglaterra para destruir a Alemanha afirmavam que Deus era o seu co-piloto. Os ditadores, os primeiros-ministros, os generais, os presidentes, todos eles falam de Deus, têm imensa fé em Deus. E estarão eles a fazer o que deviam fazer, construindo uma vida melhor para os seres humanos? As pessoas que afirmam acreditar em Deus já destruíram metade do mundo, e este planeta está uma completa desgraça. Através da intolerância religiosa criam-se divisões entre os povos, os que acreditam e os que não acreditam, o que conduz a guerras religiosas. Isso demonstra como as nossas mentes estão extraordinariamente politizadas.

Será que acreditar em Deus é “um poderoso incentivo para uma vida melhor”? Por que queremos nós um incentivo para viver melhor? Claro que esse incentivo deve ser o nosso próprio desejo de viver com higiene e com simplicidade, não é assim? Se procuramos um incentivo, é porque não estamos interessados em tornar a vida melhor para todos, estamos apenas interessados no nosso incentivo, que é diferente do de outra pessoa – e acabaremos por lutar por causa de um incentivo. Se vivermos em paz uns com os outros, não porque acreditamos em Deus mas porque somos seres humanos, então partilharemos todos os meios de produção com o objectivo de produzir coisas para toda a gente. Devido à falta de inteligência, aceitamos a ideia de uma super-inteligência a que chamamos “Deus”; mas esse “Deus” não nos vai proporcionar uma vida melhor. O que conduz a uma vida melhor é a inteligência; e não pode existir inteligência se houver crença, se houver divisões sociais, se os meios de produção estiverem nas mãos de poucos indivíduos, se existirem nações isoladas e governos soberanos. Tudo isto indica falta de inteligência e é a falta de inteligência que está a impedir uma vida melhor, e não a descrença em Deus.

Todos nós acreditamos de modos diferentes, mas a crença não tem qualquer realidade. A realidade é aquilo que cada um é, o que cada um faz, pensa, e acreditar em Deus é um mero escape para a nossa monótona, estúpida e cruel existência. Mais, a crença invariavelmente divide as pessoas: há o hindu, o budista, o cristão, o comunista, o socialista, o capitalista, e tudo o resto. A crença e a ideia dividem; nunca levam as pessoas a estarem unidas. Algumas pessoas podem juntar-se e formar um grupo; mas esse grupo acaba por se opor a outro grupo. Ideias e crenças nunca são unificadoras; pelo contrário, elas são separativas, desintegradoras e destrutivas. Portanto, a crença em Deus está de facto a espalhar a infelicidade no mundo; embora essa crença nos traga consolo momentâneo, ela na realidade trouxe mais sofrimento e destruição na forma de guerras, fome, divisão de classes e a impiedosa acção de indivíduos que se puseram à parte. Assim, a crença não tem validade alguma. Se acreditássemos realmente em Deus, se isso fosse uma experiência real para nós, então haveria um sorriso na nossa face; e não destruiríamos os outros seres humanos.

O que é a Realidade? O que é Deus? Deus não é a palavra, a palavra não é a Realidade. Para conhecer isso que é imensurável, que não está no tempo, a mente tem de estar liberta do tempo, quer dizer, a mente tem de se libertar de todo o pensamento, de todas as ideias acerca de Deus. O que sabemos nós sobre Deus ou a Verdade? Não sabemos realmente nada sobre essa Realidade. Tudo o que conhecemos são palavras, são experiências de outros ou alguns momentos de experiências pessoais. Claro que isso não nos dá a conhecer Deus, não é a Verdade, isso não está para além do tempo. Para se conhecer isso que está para além do tempo, temos de compreender o processo do tempo, tempo sendo pensamento, sendo o processo de “vir a ser”, sendo acumulação de conhecimentos. Isso é tudo o que está por detrás da mente; a mente, em si, é esse fundo (background), é o consciente e o inconsciente, é o colectivo e o individual. Assim, a mente tem de estar livre do conhecido, isto é, ela tem de estar completamente em silêncio, não forçada ao silêncio. A mente que atinge o silêncio como um resultado, como o produto de determinada acção, prática ou disciplina, não é uma mente em silêncio. A mente que é forçada, controlada, moldada, posta dentro de limites e mantida quieta, não é uma mente em paz. Podemos ter sucesso por algum tempo em forçar a mente a ser superficialmente silenciosa, mas tal mente não é uma mente serena. A serenidade só acontece quando compreendemos todo o processo do pensamento, porque compreender esse processo é acabar com ele, e na cessação do processo do pensamento está o começo do silêncio.

Só quando a mente está completamente em silêncio, não apenas a um nível superficial mas a um nível profundo da consciência – só então o desconhecido pode manifestar-se. O desconhecido não é algo para ser experimentado pela mente; apenas o silêncio, e só o silêncio pode ser experienciado. Se a mente experimenta o silêncio, é porque está simplesmente a projectar os seus próprios desejos, e uma tal mente não está em silêncio; enquanto a mente não estiver em silêncio, enquanto o pensamento sob qualquer forma, consciente ou inconsciente, estiver em movimento, não poderá haver silêncio. Silêncio é libertação do passado, dos conhecimentos, de memórias conscientes e inconscientes; quando a mente está em completo silêncio, não em funcionamento, quando há silêncio que não é produto do esforço, então o Intemporal, o Eterno dá-se a mostrar. Esse estado não é um estado para lembrar – não há qualquer entidade a recordá-lo, a experimentá-lo.

Portanto, Deus, a Verdade, chamemos-lhe o que quisermos, é algo que se manifesta a todo o momento, e isso só acontece num estado de liberdade e de espontaneidade, não quando a mente é disciplinada de acordo com um padrão. Deus não é uma coisa da mente, não vem através da autoprojecção; só acontece quando há virtude, que é liberdade. Virtude é enfrentar o facto de o que é, e enfrentar o facto gera um estado de bênção. Quando a mente está nesse estado de profunda alegria, em paz, sem qualquer movimento, sem a projecção consciente ou inconsciente do pensamento, – só então o Eterno se manifesta.

in A Primeira e Última Liberdade

 

ACÇÃO SEM REACÇÃO

As ideias, os conceitos, os padrões nascem do pensamento. Este, por sua vez, baseia-se no nosso condicionamento. Todo o nosso pensar, por mais nobre, requintado ou subtil que seja, é resultado das nossas experiências, dos nossos conhecimentos acumulados. Não há pensamento sem passado. O nosso pensar é uma mera reacção da memória. Mas eu estou falando da acção sem reacção – ou seja, viver sem o pensamento como reacção da memória.

Neste mundo há guerra, há a bomba atómica e há os chamados “pacifistas”, que são aqueles que não desejam a guerra e que falam da abolição da bomba; para eles, esse é o ideal. Mas a bomba é simplesmente um resultado, um produto de um processo histórico gerado pelo nosso nacionalismo, ganância, ambição, preconceitos, pelas diferenças sociais e pelas nossas antagónicas inclinações religiosas. Todas estas coisas produziram a bomba. O importante é mudarmos o nosso modo de vida, o nosso modo de pensar. Mas ninguém quer fazer tal coisa. Ninguém deseja essa revolução total, e é dela que estou falando: da revolução total, que não é reacção.

 

Saanen, Julho 1962

 

INFORMAÇÕES

O Centro de Educação de Rishi Valley (uma das Escolas fundadas por K. na Índia), localizado numa zona remota de Andhra Pradesh, foi reconhecido como merecedor de uma distinção internacional: The Global Development Network. O prémio foi atribuído em reconhecimento do trabalho do Centro nas suas escolas rurais, dos seus programas de formação e da sua metodologia de ensino desenvolvidos para fazer face às necessidades dos mais desfavorecidos.

As práticas educacionais do Centro de Rishi Valley têm sido adoptadas por milhares de escolas governamentais e privadas, localizadas em várias regiões da Índia e da Etiópia.

A abordagem integrada do Centro encara as escolas como centros de recursos para a comunidade. Conservação da biodiversidade biológica e das culturas locais são incluídas nesta visão que coloca a criança no centro das actividades e trabalha para que as escolas pertençam à comunidade.

O Prémio foi concedido pelo governo do Japão ao projecto de desenvolvimento mais inovador de 2004.

Para mais detalhes, contactar: Rishi Valley Education Centre, Rishi Valley PO, Chittor District, Andhra Pradesh, 517352, Índia; endereço electrónico: office@rishivalley.org

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Traduzidos por amigos ligados a este Núcleo, serão publicados em breve os seguintes livros de K.:

-SERÁ QUE A HUMANIDADE PODE MUDAR? (Diálogos de K. com Budistas), Editora Dinalivro.

-O LIVRO DA VIDA, Editorial Presença.

-A PRIMEIRA E ÚLTIMA LIBERDADE (com prefácio de Aldous Huxley), Editorial Presença.

 

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