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NÚCLEO CULTURAL KRISHNAMURTI Boletim 43 |
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HAVERÁ ALGO PARA ALÉM DO TEMPO E DO PENSAMENTO?
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| HAVERÁ ALGO PARA ALÉM DO TEMPO E DO PENSAMENTO? Onde quer que se vá, pelo mundo, observam-se as constantes tentativas da mente humana para procurar averiguar se há algo realmente sagrado, divino, incorruptível. Para encontrar isso, os sacerdotes, por todo o mundo, têm dito que se deve ter fé em algo a que o homem tem chamado Deus. Mas será que se pode investigar e saber se “Ele” existe, ou não, quando se obedece a alguma religião ou crença particular? Ou será isso apenas invenção de uma mente que tem medo, que vê que tudo está em constante mudança, que tudo é transitório, e procura algo permanente, que esteja para além do tempo? É importante estar-se interessado neste problema, quer se acredite ou não, porque, a não ser que se descubra essa dimensão, que se aprenda sobre isso, a vida será sempre superficial. Pode-se ser moral – no verdadeiro sentido da palavra, sem pressão ou interferência da sociedade, da cultura – pode-se levar uma vida bastante harmoniosa, equilibrada, não contraditória, sem medos, mas a não ser que se encontre essa Realidade que a humanidade tem procurado, por muito moral que se possa ser, por muito socialmente activo que se seja, tentando fazer tudo bem, etc., a vida é superficial. Ser verdadeiramente moral é ter raízes nessa profundidade, que é ordem. Se se é realmente sério, realmente interessado em todo o fenómeno da existência, é importante aprender por si mesmo se há algo inominável, para além do tempo, não criado pelo pensamento, e que não é uma ilusão da mente humana, a ambicionar ir além da sua experiência. Precisamos de aprender bastante sobre isso, porque esse aprender dá à vida uma extraordinária profundidade – e não só lhe dá significado, mas também grande beleza; uma vida em que não há conflito, mas um grande sentido de unidade, de completude, de segurança. Para a mente poder aprender sobre essa Realidade, tem naturalmente de pôr de lado as coisas que o homem tem criado e a que chama “divinas”, com todos os rituais religiosos, crenças e dogmas, nos quais está condicionado. Espero que estejamos a comunicar uns com os outros, e também que cada um de vós tenha de facto posto de lado todas essas coisas, não só ao nível verbal, mas interiormente, de modo profundo, para que esteja completamente capaz de se manter só, não influenciado, sem depender psicologicamente de coisa alguma. A dúvida é importante; contudo é preciso não a deixar à solta. Inquirir significa ter a dúvida bem segura, de modo inteligente; não tem sentido duvidar de tudo. Se investigarmos inteligentemente e virmos por nós mesmos todas as implicações da estrutura que o homem cria na sua tentativa de descobrir se há, ou não há, uma imortalidade, um estado da mente que seja intemporal, não perecível, então estamos capazes de começar a aprender. O pensamento nunca pode encontrar esse estado, porque o pensamento não só é tempo e limitação, como é também todo o conteúdo do passado, consciente ou inconsciente. Quando o pensamento “diz” que está a procurar algo real, é capaz de projectar o que ele considera ser real, e isso torna-se uma ilusão. Quando o pensamento se propõe praticar uma disciplina, com o objectivo de descobrir, está a fazer aquilo que muitos “santos”, religiões e doutrinas fazem. Vários gurus dizem que temos de treinar o pensamento, de o controlar, “disciplinar”, para o forçar a ajustar-se aos padrões que eles dão, e se encontre finalmente a Realidade. Mas podemos ver que o pensamento não será capaz de encontrá-las, porque o pensamento, nas sua essência, não é livre. O pensamento nunca pode ser novo (porque resulta da memória, da experiência e do conhecimento acumulados). E para se encontrar algo que não pode ser apreendido pelos sentidos, que é incognoscível e totalmente novo, o pensamento tem de estar completamente silencioso. Será o pensamento capaz de estar imóvel, silencioso – sem nenhum esforço, sem ser controlado? Porque no momento em que é controlado, há um “controlador” que é também invenção do pensamento. Então, o “controlador” começa a controlar os seus pensamento, e há conflito. Onde há conflito tem de existir a actividade do pensamento. A mente é resultado da evolução, é o depósito de muito conhecimento acumulado, e este resulta de um grande número de influências, de experiências, que são a própria essência do pensamento. Será essa mente capaz de estar silenciosa, sem ser controlada, “disciplinada”, sem nenhuma forma de esforço? Quando há esforço tem de haver distorção. Se vós e eu aprendermos isto, então seremos capazes de funcionar equilibradamente, normalmente, de modo saudável, na vida de todos os dias, sentindo-nos extraordinariamente libertos da agitação constante do pensamento. Ora, como pode isto acontecer? É isto o que a humanidade tem procurado. Sabemos muito bem que o pensamento é passageiro, que pode ser mudado, modificado, ampliado, e que o pensamento é realmente incapaz de penetrar em alguma coisa que não possa ser percebido por qualquer processo de pensamento. A humanidade pergunta como é que o pensamento pode ser controlado, porque vemos claramente que só quando a mente está completamente tranquila, silenciosa, podemos escutar, ou ver, alguma coisa claramente e de maneira completa. Poderá a mente estar inteiramente tranquila? Já alguma vez pusestes essa questão? Se já o fizestes, e já encontrastes uma “resposta”, essa resposta estará certamente de acordo com o vosso pensar. Poderá o pensamento compreender naturalmente a sua própria limitação e, ao compreendê-la, ficar silencioso? Se observamos o nosso próprio cérebro a funcionar, vemos que nas próprias células do cérebro reside o conteúdo do passado. Cada célula do cérebro conserva a memória de “ontem”, porque a memória de ontem dá grande segurança ao cérebro; o “amanhã” é incerto e no passado há certeza, no conhecimento acumulado há certeza. Assim, o cérebro é o passado e, portanto, é tempo. Só é capaz de pensar em termos de tempo; ontem, hoje e amanhã. O amanhã é incerto, mas o passado, através do presente, torna o amanhã menos incerto. Poderá esse cérebro, que tem acumulado tanta informação, através de milénios, ficar completamente silencioso? Compreendamos primeiro o problema, porque quando compreendemos o problema com todas as suas implicações, de modo claro, sensato e inteligente, a resposta está no problema e não fora dele. Todos os problemas, se os examinarmos, têm as suas respostas neles próprios, não para além deles. Assim, a questão é: será que o cérebro, a mente, toda a estrutura orgânica, pode ficar inteiramente silenciosa? Como sabemos, há diferentes espécies de silêncio. Há o silêncio entre dois ruídos; entre duas afirmações verbais existe um silêncio; há um silêncio que pode ser induzido, e um silêncio que acontece através de tremenda “disciplina”, de controle. E todos esses silêncios são estéreis. Não são realmente silêncio. Todos são produto do pensamento que deseja estar silencioso e estão, portanto, ainda na área do pensamento. Como é que a mente – que inclui o cérebro – pode estar em silêncio, sem um motivo? Se ela tem um motivo, isso é ainda obra do pensamento. Se não sabeis qual é a resposta, ainda bem, porque tudo isto requer enorme seriedade. Para se descobrir se há realmente alguma coisa que não pertença a esta dimensão (do pensamento) mas a uma dimensão totalmente diferente, precisamos de grande seriedade, de grande verdade, na qual nenhuma ilusão é provocada pelo desejo de encontrar esse estado. No momento em que a mente o deseja, ela inventa-o, fica presa numa ilusão, numa “visão”. Essa “visão”, essa experiência é uma projecção do condicionamento do passado; por muito encanto ou prazer que possa dar, por muito “extraordinária” que possa ser, ainda é do passado. Se tudo isso está muito claro, não só ao nível das palavras, mas realmente, então a questão é: poderá o conteúdo da consciência, o qual constitui a consciência, ser completamente esvaziado? Todo o conteúdo interior da nossa vivência diária é o inconsciente, e também o consciente; aquilo que temos pensado, o que temos acumulado, o que temos recebido através da tradição, através da cultura, através da luta, da dor, da mágoa, da ilusão. Tudo isso é a minha e a vossa consciência. E para descobrirmos se há realmente alguma coisa que não pertença a esta dimensão, mas a uma dimensão totalmente diferente, precisamos de grande seriedade. Sem o conteúdo, o que é a consciência? Só conheço a minha consciência devido ao seu conteúdo. Sou “hindu”, “budista”, “cristão”, “católico”, “comunista”, “socialista”, “cientista”, “artista”, “filósofo”, etc. Tenho apego à minha mulher, ao meu amigo, à minha casa. As conclusões, as lembranças, as imagens que tenho construído ao longo de cinquenta, ou de cem, ou dez mil anos são o conteúdo. O conteúdo é a minha consciência, tal como é a vossa. E essa área de consciência é tempo, porque é a área do pensamento, é a área do medir, comparar, avaliar, julgar. Dentro dessa área de consciência estão todos os meus pensamentos, inconscientes e conscientes. E qualquer movimento dentro dessa área está dentro da actividade da consciência com o seu conteúdo. Portanto, o espaço na consciência, com o seu conteúdo, é muito limitado. Se aprendemos isto juntos, o que aprendeis é vosso, não meu. Quando estais libertos de todos os líderes, libertos de todos os ensinamentos, a vossa mente está a aprender. Há, portanto, energia, tereis paixão para descobrir. Mas se estais a seguir alguém, então perdeis toda essa energia. Dentro da área da consciência com o seu conteúdo, que é tempo, pensamento, o espaço é muito pequeno. Pode-se expandir esse espaço imaginando, inventando, “esticando-o” por vários processos, pensando cada vez de modo mais subtil, mais deliberadamente, mas tudo isso está ainda dentro do limitado espaço da consciência com o seu conteúdo. Qualquer movimento da consciência para ir mais além de si mesma está ainda dentro do seu conteúdo. Quando se tomam drogas, o resultado é ainda a actividade do pensamento dentro dessa consciência, e quando se pensa que se está a ir mais além, está-se ainda dentro dela, porque isso é apenas uma ideia, ou porque se experiencia o conteúdo mais aprofundadamente. Assim, o que se vê é o conteúdo da consciência, que é o “eu”, o ego, que é a pessoa, o chamado indivíduo. Dentro dessa consciência, por muito alargada que seja, o tempo e o espaço limitado têm sempre de existir. Portanto, se essa consciência fizer um esforço com o objectivo de alcançar algo para além de si mesma, está a convidar a ilusão: lutar, esforçar-se, para procura a verdade é absurdo. Se um “mestre”, um guru, diz que a encontraremos por meio de uma prática constante, destinada a obter alguma coisa, sem a compreensão de todo o conteúdo da consciência e da necessidade de o esvaziar, isso é como um cego a conduzir outro cego. A mente é o seu conteúdo. O cérebro é o passado, e é a partir desse passado que o pensamento funciona. O pensamento (que é mecânico, e nasce da memória) nunca é livre e nunca é novo. Assim, surge a questão: Como pode esse conteúdo ser esvaziado? Não se trata de um método, porque no momento em que se pratica um método que alguém deu à pessoa, ou que ela própria inventou, isso torna-se mecânico e, portanto, está ainda dentro do campo do tempo e do espaço limitado. Será que a mente é capaz de ver a sua própria limitação? E poderá a própria percepção dessa limitação trazer consigo o findar dessa limitação? Será a mente capaz, não de perguntar como esvaziar a mente, mas de ver totalmente o conteúdo que constitui a consciência e de perceber, de escutar, todo o movimento dessa consciência, de tal modo que a própria percepção dele é o findar desse movimento? Vejo alguma coisa que é falsa; a própria percepção da falsidade é já o verdadeiro. A própria percepção de que estou a dizer uma mentira é a verdade. A própria percepção da minha inveja é já libertar-me da inveja. Isto é, só podemos ver muito claramente, observar com grande lucidez, quando não há “observador” (o “eu” com todo o seu condicionamento). O “observador” é o passado a imagem, a conclusão, o juízo, a opinião. Assim, será a mente capaz de ver o seu conteúdo, claramente, sem nenhum esforço, capaz de ver a limitação, a falta de espaço da consciência com o seu conteúdo, e ver também como isso nos prende ao tempo? Será que podemos compreender isto? Só podemos compreendê-lo na sua totalidade – o conteúdo inconsciente e o consciente – quando somos capazes de olhar em silêncio, quando o “observador” está totalmente silencioso. Isso significa que temos de estar atentos, e nessa atenção há energia. Ao passo que, quando se faz um esforço para se estar atento, esse esforço é desperdício de energia. Quando se tenta controlar, há dissipação de energia. O controle implica conformismo, comparação, repressão, e tudo isso é desperdício de energia. Quando há percepção, há atenção, que é energia total, sem o mais leve sopro de dissipação de energia. Ora, quando se olha com energia todo o conteúdo consciente e inconsciente, a mente então fica vazia. Isto não é uma ilusão minha. Não é o que “eu” penso, nem uma conclusão a que cheguei. Se tenho uma conclusão, se apenas penso que isto está certo, então estou iludido. E sabendo que isso seria uma ilusão, não falaria disto, porque se via como um cego a conduzir outros cegos. Podeis ver por vós mesmos a lógica disto, a sua sensatez, se estais de facto a escutar, a prestar atenção, se quereis realmente descobrir. Como é possível o inconsciente, com o seu conteúdo expor toda a sua profundidade? Vejamos primeiro a questão, e depois poderemos prosseguir a partir dali. Tal como dividimos tudo na vida, dividimos a consciência em o “consciente” e o “inconsciente”. Esta divisão, esta fragmentação, é induzida pela nossa cultura, pela educação que recebemos. Os motivos, a herança racial, a experiência adquirida fazem parte do inconsciente. Poderá isso ser exposto à luz da inteligência, à luz da percepção? Se fazemos esta pergunta, será que estamos a fazê-la como um psicanalista, que vai analisar o conteúdo, e encontrar, portanto, contradição, conflito, sofrimento? Ou faremos esta pergunta sem termos conhecimento nenhum sobre a resposta? Isto é importante. Se fazemos a pergunta com seriedade – como expor toda esta estrutura oculta da consciência, num verdadeiro estado de não saber, vamos de facto aprender; mas se temos qualquer espécie de conclusão, de opinião, então vamos abordar a questão com uma mente que já supõe qual é a resposta, ou que não há resposta alguma. Podemos ter conhecimentos sobre a questão segundo algum filósofo, algum psicólogo, algum psicanalista, mas esse conhecimento não é nosso. É o conhecimento dessas pessoas, e a nossa interpretação dele, tentando compreender o que elas dizem, e não o que é real. Para a mente que diz: “Não sei” – o que é verdade, o que é sério – o que há então? Quando dizemos “Não sei”, o conteúdo não tem qualquer importância, porque, então, a mente é uma mente fresca, nova. A mente nova é que diz “Não sei”. Portanto, quando o dizemos, não apenas verbalmente, por entretenimento, mas com profundidade, com sentido, com seriedade, esse estado da mente que não conhece está esvaziado da sua consciência, do seu conteúdo. O conhecimento é que é o conteúdo. Compreendem? Quando a mente não pode dizer que conhece, é sempre nova, cheia de vida, actuante; portanto, não está presa, não está ancorada. Só quando está ancorada é que acumula opiniões, conclusões, criando assim, separação. Meditação é isto. Ou seja, meditação é perceber a verdade em cada momento – não a verdade final – perceber o verdadeiro e o falso em cada momento. Perceber a verdade que o conteúdo é a consciência – isso é verdade. Ver a verdade que “não sei como lidar com isto” – isso é verdade, o não saber. Portanto, não saber é o estado em que não há conteúdo. É extremamente simples. Pode-se até achar simples demais, porque se prefere algo muito elaborado, complicado, construído. Acha-se estranho ver algo extraordinariamente simples. Mas, por isso mesmo, é extraordinariamente belo. Será possível a mente, o cérebro ver a sua própria limitação, a limitação que é estar sujeito ao tempo e a um espaço limitado? Enquanto se viver dentro desse limitado espaço e desse processo de sujeição ao tempo, tem de haver sofrimento, desespero alternando com esperança e toda a ansiedade que isso traz consigo. Quando a mente percebe a verdade disto, então, o que é o tempo? Será que há, então, uma dimensão diferente que o pensamento não é capaz de atingir e, portanto, de descrever? Dissemos que o pensamento é medida e, por consequência, tempo. Vivemos com base no medir (o melhor, o pior, o mais, o menos, etc.); toda a nossa estrutura do pensamento tem por base a medida, que é comparação. E o pensamento, como medida tenta ir para além de si mesmo e descobrir por si se há algo mais, que não seja mensurável. Ver a irrealidade, a falsidade dessa tentativa é a verdade. A verdade é ver o falso, e o falso existe quando o pensamento procura o que é Imensurável, que está para além do tempo, que está para além do limitado espaço do conteúdo da consciência. Quando pomos todas estas questões e investigamos, quando vamos aprendendo enquanto prosseguimos, então a nossa mente e o nosso cérebro tornam-se extraordinariamente silenciosos. Não há necessidade de nenhuma “disciplina”, de nenhum instrutor ou guru, de nenhum sistema, para nos fazer estar silenciosos. Presentemente, por todo o mundo são apresentadas várias espécies de “meditação”. O homem está ávido, ansioso, por experimentar algo sobre o qual nada conhece. Uma coisa que agora está na moda é o yoga; foi trazido para o mundo ocidental “para fazer as pessoas saudáveis, felizes, jovens”, “para as ajudar a encontrar Deus”... – tudo está agora incluído nele. Existe também, agora, a busca do oculto, porque é muito excitante... Para a mente de quem procura a Verdade, que tenta compreender a vida na sua totalidade, que vê o falso como o falso e a verdade no falso, as coisas ocultas são bastante óbvias, e uma mente assim não se dedica a isso. Não tem qualquer importância eu poder ler os pensamentos de outro, ou ele poder ler os meus pensamentos, poder ver anjos, fadas, ou ter visões. Desejamos algo misterioso, mas não vemos o imenso mistério que existe no viver, no amor que é inerente à vida. Não vemos isso e gastamo-nos em coisas que não têm importância. Quando acabamos com tudo isso, há então a questão central: Haverá algo que não é possível descrever? Se o descrevermos, isso não é o que é descrito. Haverá algo que não é do tempo, uma dimensão que é espaço sem limites, um espaço imenso? Quando o nosso espaço é limitado, ficamos prisioneiros dos hábitos; onde não há espaço tornamo-nos violentos, queremos destruir coisas. Queremos espaço, mas a mente, o pensamento, não pode dar esse espaço. Só quando o pensamento está silencioso existe o espaço que não tem fronteiras. E só a mente completamente silenciosa pode descobrir se há, ou não há, algo que está para além de toda a medida. E essa é a única Realidade que é sagrada – não as imagens, os rituais, os gurus, os “salvadores”, as visões. Só essa Realidade é sagrada – Realidade que a mente descobre sem procurar, porque não está ocupada, porque tem espaço em si mesma: está totalmente vazia. E só naquilo que tem esse espaço, esse vazio, é que algo novo pode acontecer. Brockwood Park, Setembro 17, 1972 Não estou a falar de ideias mas do que está realmente a acontecer em cada um de vós. Assim, não estais meramente a escutar as minhas palavras mas, através das palavras que estão a ser usadas, estais a olhar-vos a vós mesmos. Estais a olhar para vós mesmos não através de ideias mas ficando directamente em contacto com o facto, por exemplo, com o facto de que tendes medo – o que é inteiramente diferente da ideia de que tendes medo. Bombaim, 1965 ***************************************
Os problemas do mundo são inumeráveis e estão a multiplicar-se. E se não formos capazes de resolver os nossos problemas logicamente, com equilíbrio, saudavelmente, com a mente livre de todo o conflito, estaremos apenas a criar mais confusão, mais infelicidade para o mundo e para nós mesmos. Assim, a primeira coisa que cada um tem de aprender, por si, é a observar com atenção, escutando todos os murmúrios, todos os medos, ilusões, desesperos, do seu próprio ser. Veremos então por nós mesmos – e isso não precisa de provas, nem de gurus, nem de livros sagrados – se há uma Realidade. E encontraremos então um extraordinário sentido de libertação do sofrimento. E nisso há claridade, beleza e aquilo que hoje falta à mente humana – a afeição, o amor. Janeiro 12, 1964 *************************************** NO FINDAR DO SOFRIMENTO ESTÁ O AMOR Esta noite vamos percorrer um longo caminho. Ontem tratámos do sofrimento e do findar do sofrimento. Quando o sofrimento chega ao fim, há paixão. Poucos compreendem realmente a questão do sofrimento ou nela penetram profundamente. Será possível acabar, de vez, com o sofrimento? Todos os seres humanos têm feito esta pergunta, talvez não muito conscientemente mas, no fundo, todos querem saber se a dor e o sofrimento humano podem acabar. Enquanto o sofrimento não termina, não pode haver amor. O sofrimento é um golpe violento para o sistema nervoso, é como um soco no corpo e na psique. Geralmente, tentamos fugir dele através de drogas, do álcool, de movimentos religiosos – ou então acabamos cépticos ou passamos a aceitar as coisas como inevitáveis. Será que podemos investigar, a fundo e com seriedade, se é possível ficar com o problema, sem fugir dele? Suponhamos que o meu filho morre e, sofrendo com isso um grande choque, uma dor imensa, descubro que sou um ser humano muito só. Não consigo encarar nem suportar a situação e, por isso, fujo dela. Há inúmeras formas de fuga – religiosas, mundanas e filosóficas. Mas será que posso permanecer com o que aconteceu, com essa coisa chamada sofrimento, sem procurar, de modo algum, fugir da dor, da angústia, da solidão, da aflição, do choque? Será que podemos observar um problema, observá-lo apenas, sem querer resolvê-lo, olhar para ele como se fosse uma jóia preciosa? Olhamos sem parar para uma coisa bonita, sem qualquer desejo de nos separarmos dela; a sua beleza atrai-nos tanto e proporcionando-nos tanto prazer que ficamos a olhar para ela durante muito tempo. Se, da mesma forma, pudermos observar o nosso sofrimento, sem qualquer movimento de julgamento ou de fuga, ficar com o sofrimento, nesse caso a própria acção de ficar com o facto liberta-nos completamente daquilo que produziu a dor. Voltaremos a isto mais tarde. Vamos também investigar o que é a beleza – não a beleza de uma pessoa nem a de quadros e estátuas de museus, nem vamos considerar os esforços do homem para transmitir os seus sentimentos através da pedra, da pintura, ou de um poema, mas vamos inquirir dentro de nós o que é a beleza. Talvez a beleza seja a verdade. Talvez seja o amor. Sem compreendermos a natureza e a profundidade dessa coisa extraordinária que é a beleza, jamais chegaremos ao que é sagrado. Examinemos, portanto, a questão da beleza. O que acontece quando vemos algo grandioso como uma montanha coberta de neve recortada contra o céu azul? Por um segundo a majestade da montanha, a sua imensidão, o seu belo recorte contra o céu azul apaga toda a preocupação que temos em relação a nós mesmos. Nesse segundo não há “ninguém” a olhar. Por um segundo, a grandiosidade da montanha afasta todo o sentimento egocêntrico da nossa existência. Certamente que já devem ter notado isso. Já observaram uma criança com um brinquedo? Durante todo o dia ela faz travessuras (o que é normal), e então damos-lhe um brinquedo. Durante algum tempo, até que quebre o brinquedo, ela vai permanecer tranquila; o brinquedo dissipou a sua agitação. Assim também quando vemos algo extraordinariamente belo, a beleza absorve-nos. Significa isto que só há beleza quando cessa a luta do eu, quando não existe mais egocentrismo. Compreendem? Se não ficamos absorvidos nem impressionados por algo muito belo, como uma montanha ou um vale cheio de sombras, será que podemos compreender a beleza sem o ego? Quando o eu está presente, não há beleza; quando existe egocentrismo, não há amor. O amor e a beleza estão sempre juntos – não são duas coisas separadas. Vamos também tratar da morte. A morte é uma coisa que todos precisamos de enfrentar. Sejamos ricos ou pobres, ignorantes ou eruditos, jovens ou velhos, a morte é inevitável para todos nós; todos vamos morrer. Não compreendemos a natureza da morte. Estamos sempre com medo de morrer, não estamos? Para compreender a morte tempos investigar o que é o viver, o que é a nossa vida, pois estamos desperdiçando a nossa vida, estamos desperdiçando as nossas energias de diversas maneiras nas muitas profissões especializadas. Pode acontecer que sejamos ricos, muito competentes, que sejamos especialistas, cientistas, homens de negócios, tenhamos poder; mas, no fim da vida, será que tudo isso não foi um desperdício? Todo essa luta, sofrimento, essa enorme ansiedade e insegurança, as ridículas ilusões (deuses, santos, etc.) que o homem acumulou, não será tudo isso um desperdício? Esta pergunta é muito séria, e cada um tem de fazê-la a si próprio. Ninguém pode responder por nós. Costumamos separar o viver do morrer. A morte fica lá no fim da vida; colocamo-la o mais longe possível. Mas, ainda que seja uma longa existência, temos de morrer. E o que é isso a que chamamos viver – ganhar dinheiro, ir ao escritório das nove às cinco horas? E com isso passamos por interminável conflito, medo, ansiedade, solidão, desespero, depressão. Mas será que toda essa existência a que chamamos vida, viver (essa imensa vicissitude do homem com o seu conflito sem fim, decepção, degradação) – será isso viver? Mas é a isso que chamamos viver; é isso que conhecemos, é com isso que estamos familiarizados, essa é a nossa existência diária. E a morte significa o fim de tudo, o findar de tudo o que pensamos, acumulamos e gozamos. E vivemos apegados a tais coisas. Estamos apegados à família, ao dinheiro, aos conhecimentos, às crenças com as quais temos convivido, aos ideais. Estamos apegados a tudo isso. E a morte vem e diz: “Este é o fim de tudo, meu amigo”. Temos medo de morrer. Temos medo de deixar tudo o que conhecemos, tudo o que experimentámos e juntámos – a nossa bela mobília e a colecção de quadros de pintura. A morte chega e diz: “Nada mais te pertence.” É por isso que nos apegamos ao conhecido e tememos o desconhecido. Podemos inventar a reencarnação, que vamos renascer numa próxima vida. Mas nunca investigamos o que é isso que nasce na vida seguinte. O que renasce é um feixe de memórias. A pergunta, portanto, é esta: por que será que o cérebro separou o viver (que é conflito e tudo o mais) do morrer? Por que existe essa divisão? A divisão existe porque há apego? Podemos viver no mundo moderno com a morte? Não falamos de suicídio, mas de acabar com o apego (e isso é a morte) enquanto vivemos. Estou apegado à casa onde vivo – comprei a casa por muito dinheiro e apego-me ao mobiliário, aos quadros, à família, a todas essas memórias. Então chega a morte e acaba com tudo. Mas será que podemos conviver diariamente com a morte, dando um fim a tudo no final de cada dia, eliminando todo o nosso apego? Isto significa morrer. Como costumamos separar o viver do morrer, estamos sempre com medo. Quando juntamos a vida e a morte, o viver e o morrer, então descobrimos que há um estado cerebral em que cessa todo o conhecimento como memória. Precisamos do conhecimento para escrever uma carta, vir até aqui, falar inglês, fazer contas, ir para casa, etc. Mas será que podemos usar o conhecimento sem sobrecarregar a mente? Poderá o cérebro usar o conhecimento quando necessário, mas estar livre de todo o conhecimento? O nosso cérebro está sempre registando; agora mesmo está registando o que se está a dizer. O registo torna-se memória e a memória, nesse registo, é necessária em certos domínios, no campo da actividade física, por exemplo. Por conseguinte, pode o cérebro usar o conhecimento quando necessário mas estar livre do velho conhecimento? Pode o cérebro estar livre para funcionar perfeitamente noutra dimensão? Todos os dias, portanto, quando forem dormir, eliminem tudo o que acumularam; morram no fim do dia. E ouvimos então algo como isto: “viver é morrer”; “viver e morrer não são duas coisas diferentes”. Se escutarmos essas palavras não apenas com os ouvidos, com muita atenção, compreenderemos a verdade disso, compreenderemos a realidade. E, imediatamente, veremos como isso é claro. Será que, no fim do dia, podemos morrer para tudo o que não é necessário? Morrer para a lembrança das nossas mágoas, das nossas crenças, medos, ansiedades, infortúnios – será que podemos pôr fim a tudo isso diariamente? Então descobriremos que estamos vivendo com a morte o tempo todo, pois a morte é o fim. Precisamos, de facto, investigar esta questão do findar. Nunca terminamos definitivamente coisa alguma; só acontece quando conseguimos alguma vantagem com isso, alguma recompensa. Mas, será que podemos viver assim no mundo de hoje – acabando com tudo voluntariamente, sem pensar no futuro, sem esperar por algo “melhor”, passando a ter uma maneira holística de viver, vivendo e morrendo a cada momento? Estamos tratando juntos de coisas com as quais o homem se vem ocupando há muitos milhares de anos – o viver e o morrer. Temos, assim, de examinar juntos o problema e não reagir a ele, dizendo: “Mas eu acredito na reencarnação” – pois, nesse caso, termina o diálogo entre nós. Estamos apegados a muitas coisas – ao nosso guru, ao conhecimento acumulado, ao dinheiro, às crenças com que temos vivido, aos ideais, à memória do nosso filho ou filha, e por aí fora. Nós somos memória. O nosso cérebro é todo ele memória – não somente a memória dos conhecimentos recentes mas também a dos mais remotos, a memória profunda que conserva o que foi o animal, o macaco. Fazemos parte dessa memória e estamos apegados a toda essa consciência. Isto é um facto. Então chega a morte e diz: “ O seu apego acabou.” E nós tememos tal coisa, tememos ficar completamente libertos de tudo isso. No entanto, a morte retira-nos tudo o que adquirimos. Podemos inventar, e dizer: “Sim, mas eu continuo na próxima vida.” Mas o que é que continua? Compreendem a pergunta? Que significa o desejo de continuar? Haverá alguma espécie de continuidade a não ser a da sua conta bancária, a de ir diariamente para o escritório, a da rotina do culto e a continuidade das crenças – tudo o que o pensamento criou? O pensamento é limitado e, assim, cria conflito – já vimos isso. E o eu, o ego, é um complicado feixe de memórias, antigas e recentes. Vivemos de memórias. Vivemos do conhecimento, adquirido ou herdado; somos o produto do conhecimento. O eu é o conhecimento resultante das experiências passadas, dos pensamentos, etc. O eu é tudo isso. O eu pode inventar que há algo divino em nós; mas isso ainda é actividade do pensamento. E o pensamento é sempre limitado. Podeis ver isso por vós mesmos; não precisais de ler livros nem de estudar filosofias; podeis perceber claramente por vós mesmos que sois um feixe de memórias. E a morte põe fim a toda e qualquer memória. É por isso que ficamos com medo. A questão, portanto, é esta: será que podemos conviver com a morte no mundo moderno? Agora temos de examinar juntos o que é o amor. Será que o amor é sensação? Será desejo? Será prazer? Será algo criado pelo pensamento? Será que amamos a esposa ou o marido ou os filhos? Será que o amor é ciúme? Não digam já que não. Será que o amor é medo, ansiedade, sofrimento e tudo o mais? O que é o amor? Ainda que sejam ricos, tenham poder, posição social, sem amor, sem esse perfume, essa chama, serão apenas como uma concha vazia. Precisamos, assim, de aprofundar a questão do amor. Se amassemos os nossos filhos, haveria guerras? Permitiríamos que eles matassem outros? Pode haver amor quando existe ambição? Enfrentemos tudo isto. Mas não conseguimos porque estamos presos a uma rotina, à sensação repetida de sexo, etc. O amor nada tem a ver com prazer, com sensação. O amor não provém do pensamento; não faz parte, por isso, da estrutura do cérebro. É algo que está completamente fora do cérebro, pois o cérebro, pela sua própria natureza, é um instrumento da sensação, das reacções nervosas. Quando há sensação, não existe amor. O amor não é uma coisa da memória. E temos ainda de falar sobre a vida religiosa e a religião. Este é um assunto muito complexo. Os seres humanos há muito vêm buscando algo que esteja para além do mundo físico, além da existência diária de sofrimento, dor ou prazer. Têm buscado algo transcendente, primeiro nas nuvens, sendo o trovão “a voz de deus”. Depois adoraram árvores, pedras – os aldeões que vivem longe desta feia e detestável cidade ainda veneram pedras, árvores, pequenas imagens. O homem deseja saber se existe alguma coisa sagrada e, então, chega o sacerdote e diz: “Vou mostrar-lhe” – é exactamente o que faz o guru. Os sacerdotes do Ocidente possuem os seus rituais, frases repetidas, roupas ornamentadas e o culto de imagens. E os daqui também têm as suas próprias imagens. Há os que não acreditam em nada disso; são ateus e dizem-se humanistas. Mas os que ouvem este orador querem descobrir se há algo fora do tempo, além do pensamento. Vamos, portanto, investigar juntos, exercitar o nosso cérebro, a nossa razão, a nossa lógica, para averiguarmos o que é a religião, o que é a vida religiosa e se é possível viver uma vida religiosa no mundo actual. Investiguemos, por conseguinte, para descobrir o que, verdadeiramente, é uma vida religiosa. E só podemos descobrir isso quando compreendemos o que são as religiões e as rejeitamos totalmente – não pertencendo a nenhuma religião, organização, guru, ou determinada autoridade que se diz espiritual. Não há autoridades espirituais; inventar um mediador entre nós e a verdade é um dos crimes que cometemos. Quando investigamos o que é a religião, nessa mesma investigação já estamos a viver religiosamente; não no fim dela. No próprio processo de olhar, observar, discutir, duvidar, questionar, não ter crença nem fé, nessa própria investigação já estamos a viver uma vida religiosa. Vamos fazer isso agora. Quando se trata de assuntos religiosos parece perdermos a razão, a lógica, o bom senso. Precisamos, portanto, de ser lógicos, racionais, descrentes, questionadores em relação a tudo o que homem criou – deuses, salvadores, gurus, com toda a sua autoridade; precisamos de eliminar completamente tudo isso. Nada disso é religião; é apenas autoridade assumida por alguns. E nós é que lhes conferimos autoridade. Já notaram que, sempre que há desordem social e política nas relações humanas, aparece um déspota, um ditador? Temos exemplos recentes disso. Sempre que há desordem na nossa vida, criamos uma autoridade; somos responsáveis pela autoridade e existem pessoas prontas a aceitar essa autoridade. Sempre que há medo, inevitavelmente o homem procura um meio de se proteger, de se manter em segurança, uma vez que ele sente medo. E é por causa desse medo que inventamos deuses. Por causa desse medo é que inventamos rituais e todo esse “circo” a que damos o nome de religião. Todos os templos neste país, todas as igrejas e mesquitas, tudo isso foi o pensamento que criou. Podem afirmar que há uma revelação sem jamais duvidarem de tal coisa. Mas ponham em dúvida essa revelação. Acontece que aceitam; se usarem, contudo, a lógica, a razão, o bom senso, perceberão como acumulam superstições – e nada disso, obviamente, é religião. Será que podem pôr de lado tudo isso para descobrirem a essência da religião, descobrirem qual é a mente, o cérebro, capaz de viver religiosamente? Será que podem, como seres humanos cheios de medo, viver sem inventar nada, sem criar ilusões, e enfrentar o medo? O medo psicológico pode desaparecer completamente quando ficamos com ele, sem fugir dele, dando-lhe total atenção. É como lançar um jacto de luz sobre o medo; o medo extingue-se por completo. E, quando não há medo, já não há mais deuses, já não há mais rituais, pois tudo isso se torna desnecessário, estúpido. As coisas que o pensamento inventa nada têm que ver com religião, pois o pensamento não passa de um processo material resultante da experiência, do conhecimento e da memória. É o pensamento que inventa toda a estrutura das religiões organizadas que já perderam totalmente o seu significado. Será que, voluntariamente, podemos rejeitar tudo isso sem esperar por uma recompensa? Será que querem fazer isso? Se o fizerem, então mais ninguém perguntará o que é a religião. E haverá alguma coisa que esteja para além do tempo e do pensamento? Podemos fazer essa pergunta mas, se o pensamento inventar que existe algo transcendente, isso ainda constitui um processo material. O pensamento é um processo material que acumula o conhecimento nas células cerebrais. O orador não é cientista, mas podemos ver isso em nós mesmos, podemos observar no nosso próprio cérebro a actividade do pensamento. Deste modo, se pudermos desfazer-nos de tudo isso, voluntariamente, sem oposição nem resistência, é inevitável que perguntemos: será que existe algo que esteja para além do tempo e do espaço? Haverá algo jamais visto antes por qualquer outro homem? Haverá algo imensamente sagrado? Haverá algo jamais tocado pelo cérebro? É isso que vamos descobrir, se é que já demos o primeiro passo, o de pôr completamente de lado toda essa insensatez chamada “religião”. Quando usamos o cérebro e a lógica, duvidamos, questionamos. Assim, o que significa a meditação que faz parte da religião? O que é meditação? Será fugir do tumulto, ter uma mente silenciosa, uma mente tranquila e pacífica? E, para ficarmos atentos, para mantermos os pensamentos sob controle, praticamos um sistema, um método, um processo. Sentamo-nos de pernas cruzadas e repetimos um mantra qualquer. Disseram-me que a palavra mantra, etimologicamente, significa “ponderar”, “não vir a ser”, “absorver”, “eliminar toda a actividade egocêntrica”. Mas nós repetimos, repetimos e continuamos a viver egocentricamente, egoisticamente, pois o mantra perdeu o seu significado. O que é, pois, a meditação? Será um esforço consciente? Habitualmente, meditamos conscientemente, praticamos tendo em vista conseguir alguma coisa – uma mente ou um cérebro tranquilo, um estímulo para o cérebro. Mas qual é a diferença entre aquele que medita e o homem que diz “Quero dinheiro e vou trabalhar para o obter”? Qual é a diferença entre os dois? Ambos estão em busca de alguma coisa. Só que a busca de um é classificada de espiritual e a do outro, de mundana. No entanto, ambos buscam algo. Assim, para o orador, isso não é meditação; meditação nada tem a ver com qualquer desejo consciente e deliberado, não é produto da vontade. Precisamos descobrir se há alguma espécie de meditação que não seja produzida pelo pensamento. Haverá alguma espécie de meditação da qual não estejamos conscientes? Compreendem isto? Nenhum processo deliberado de meditação é meditação. Isto é tão claro! Podem sentar-se de pernas cruzadas durante o resto da vida, meditar, respirar e praticar tudo o mais que nunca chegarão perto do Desconhecido, pois isso não passa de uma acção intencional para conseguir um resultado – causa e efeito. Mas o efeito torna-se a causa e, assim, acabamos presos num círculo. Haverá uma meditação que não resulte do desejo, da vontade, do esforço? O orador diz que há. Mas não têm de acreditar nisso; pelo contrário, devem duvidar, pôr em questão, assim como o orador questionou, duvidou, rejeitou. Haverá uma meditação não planeada nem organizada? Para examinarmos isso, precisamos de compreender o condicionamento do cérebro, o cérebro limitado, o cérebro que tenta alcançar o ilimitado, o imensurável, o intemporal, se é que existe esse intemporal. E, para isso é necessário compreender o som. Som e silêncio são inseparáveis. Costumamos separar o som do silêncio. O som é o mundo; o som é o bater do coração; o universo está cheio de sons; os céus, com milhares de estrelas, estão cheios de som. E consideramos o som uma coisa insuportável. Mas, quando escutamos o som, o próprio acto de escutar é silêncio. O silêncio não está separado do som. A meditação, portanto, não é algo planeado, organizado. A meditação é. Começa com o primeiro passo que é estarmos libertos de todos os ressentimentos, libertos de tudo o que acumulámos – medos, ansiedades, solidão, desespero, sofrimento. Esta é a base, o primeiro passo, e o primeiro passo é o último passo. Se dermos o primeiro passo, isso é tudo. Mas não estamos com vontade de dar o primeiro passo porque não queremos ser livres. Queremos ser dependentes – do poder, de pessoas, do meio envolvente, da nossa experiência, do conhecimento. Nunca nos libertamos da dependência, do medo. No findar do sofrimento está o amor. E nesse amor há compaixão. A compaixão tem a sua própria inteligência. E quando a inteligência actua, actua a própria Verdade. Quando essa inteligência está presente, não há conflito. Já falámos de muita coisa – da cessação do medo, do findar do sofrimento, da beleza e do amor. Mas uma coisa é ouvir, e outra, agir. Ouvimos tudo isso (que é verdadeiro, lógico, sensato, racional) mas não agimos de acordo com o que escutámos. Vamos para casa e começa tudo de novo – as preocupações, os conflitos, toda o sofrimento. Assim, perguntamos: qual é a finalidade de tudo isto? Que adianta escutar este orador e não viver o que ele diz? Quando ouvimos e não agimos, desperdiçamos a nossa vida; se ouvimos algo verdadeiro e não agirmos, estaremos a desperdiçar a vida; E a vida é algo muito precioso – é a única coisa que temos. E acontece que perdemos também contacto com a Natureza, o que significa que perdemos contacto com nós mesmos, já que fazemos parte da Natureza. Não amamos as árvores, os pássaros, as águas, as montanhas. Estamos a destruir-nos uns aos outros. E tudo isso é desperdício de vida. Quando percebemos tudo isso não apenas intelectualmente ou verbalmente, então vivemos uma vida religiosa. Ser asceta ou entrar para um mosteiro, nada disso é levar uma vida religiosa. A vida religiosa começa quando cessa o conflito, quando existe amor. Podemos amar uma pessoa (esposa ou marido), mas falamos do amor que é para todos os seres humanos, não se destina a uma só pessoa, não é exclusivista. Portanto, se nos entregarmos com o coração, a mente e o cérebro haverá algo que transcende o tempo. E isso trará uma bênção – que nada tem a ver com templos, igrejas, mesquitas. Essa bênção estará onde estivermos. Bombaim, Fevereiro 10, 1985 Estais à espera que eu vos descreva o que é esse silêncio, a fim de poderdes compará-lo, interpretá-lo, levá-lo e “enterrá-lo”. Ele não pode ser descrito. O que pode ser descrito é o “conhecido”, e o estado liberto do conhecido só pode tornar-se existente quando há um morrer todos os dias para o conhecido, para os insultos, as lisonjas, para todas as imagens que formámos, para todas as nossas experiências: morrer todos os dias, para que as células cerebrais se tornem novas, frescas, inocentes. Mas, essa inocência, essa frescura, essa qualidade de ternura e delicadeza não produz o amor; não é ainda a qualidade da beleza ou do silêncio. Aquele silêncio, que não é o silêncio do fim do barulho, é só um modesto começo. É como passar por um túnel estreito para se chegar a um oceano imenso, vasto, extenso – a um estado imensurável, intemporal. Mas isso não se pode compreender verbalmente, a menos que se tenha compreendido toda a estrutura da consciência e o significado do prazer, do sofrimento e do desespero, e as próprias células cerebrais se tenham tornado quietas. Talvez então alcancemos aquele mistério que ninguém pode revelar-nos e nada pode destruir. Uma mente viva é uma mente quieta, é uma mente que não tem “centro” algum e, por conseguinte, não tem espaço nem tempo. Essa mente não tem limites e o Ilimitado é a única verdade, a única realidade. From FREEDOM FROM THE KNOWN
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