NÚCLEO CULTURAL KRISHNAMURTI

Boletim 42


A BELEZA DA ORDEM E OS PERIGOS DA DESORDEM

EDUCAÇÃO E RESPONSABILIDADE


   POR QUE FICAMOS MAGOADOS NO RELACIONAMENTO?

INFORMAÇÕES


A BELEZA DA ORDEM E OS PERIGOS DA DESORDEM

No telhado, na varanda e nas árvores estava um grupo de pequenos macacos castanhos, de cauda comprida, irrequietos, sempre a correr de uma lado para outro. Deviam ter chegado já tarde, na noite anterior. As suas mãos pequenas colhiam os frutos e depois de os provarem deitavam-nos fora. Puxavam constantemente os ramos do grande tamarindo. Nunca estavam sossegados. Ainda que um ou dois estivessem a dormir, cansados, estavam sempre a fazer alguma coisa com as mãos, coçando-se, puxando o pelo ou limpando o corpo de um outro. Tiravam pequenos insectos de outros macacos e engoliam-nos. Tornavam o jardim numa terrível confusão. Eram realmente muito destrutivos, mas ninguém parecia importar-se com eles. Eram considerados animais sagrados e não se devia tocar-lhes ou fazer-lhes mal. Só se podia apanhá-los em grandes redes, sem os prejudicar, e levá-los para longe num camião. Mas bem depressa eles voltavam, talvez não o mesmo grupo, mas um outro. Se os observávamos muito calmamente, fingiam não nos ver, mas estavam também a observar-nos com olhos vigilantes. Havia um grande macho e a maior parte dos outros tinha medo dele, passando à sua volta com muito cuidado, procurando evitá-lo. Mas quando deixava uma árvore, iam atrás dele. Talvez fosse o seu líder. Tinham mãos finas, rugosas, compridas e bem formadas, e pareciam ser muito inteligentes. Mais tarde, ao anoitecer, quando o sol se escondia, todos guinchavam na grande árvore banyan. Uma árvore esplêndida, de estrutura magnífica, que estendia os braços, para nos dar as boas vindas.

Quando as crianças dançavam ou representavam uma peça debaixo da árvore banyan, os macacos ficavam incomodados pela luz, a música e o grande número de pessoas. Estas, tal como os jardineiros, tentavam mandá-los embora, mas eles só se afastavam quando lhes apetecia. Não gostavam de espaços abertos. Para lá do vasto campo havia árvores de fruto – papaias, laranjas, abacates – e também havia uvas – mas estranhamente os macacos nunca iam para lá, apesar de poderem estar ali muito bem. Nunca deixavam ninguém aproximar-se muito deles. O macho grande só deixava que as pessoas chegassem até cerca de três metros; se o olhávamos, bem depressa isso lhe desagradava. Não mostrava medo, mas ficava de olhar vigilante arguto e cauteloso.

Esse grupo particular podia eventualmente ir-se embora e durante algum tempo, talvez semanas, não apareciam outros macacos. Quando partiam, as árvores, os arbustos e mesmo as plantas mais pequenas pareciam ficar satisfeitos com isso. Até os pássaros não gostavam deles especialmente os corvos; quando um corvo de aproximava, os macacos fugiam precipitadamente. Havia pequenas crias agarradas às mães, e macacos jovens com as suas longas caudas brincando juntos, balançando-se nos ramos, mas nunca se aproximavam do macho grande. Evitavam-no com muito cuidado.

Naquela manhã, o tempo estava bastante fresco e o céu azul completamente límpido. Uma longa fila de carros de bois, carregados de feno, vinha em direcção ao vale. No dia seguinte, todos os macacos desapareceram. Deviam ter subido até às colinas, para “torturar” outras árvores e devastar os amendoins. Por vezes encontrávamo-los na estrada, mas haviam sossego, agora que tinham partido.

Naquela sala, estavam muitos professores, vindos de diferentes partes do mundo. Havia um gravador a trabalhar; na varanda sentia-se o perfume do jasmim. O dia estava luminoso em sem nuvens e as colinas pareciam esculpidas pelas mãos do homem.

Professor A – O que pensa o senhor destas novas máquinas de ensino? Estão a ser muito usadas na América, e com elas as crianças aprendem sozinhas enquanto o professor as vai vigiando. E parece que aprendem muito mais rapidamente.

Krishnamurti – É estranho como tudo está a mecanizar-se. Essa aprendizagem mecânica faz a mente tornar-se mais mecânica. Não se pode discutir nenhum assunto com uma máquina. Podemos fazer-lhe perguntas e ela responderá mecanicamente. E isso pode tornar mais mecânica uma mente que já funciona dessa maneira. Os senhores não acham que a criança, o estudante, precisa de uma relação humana directa, em vez de uma máquina? O professor que quer o bem da criança que não está apenas a fornecer-lhe informações, que é um ser humano reflectindo com o jovem sobre as muitas coisas da vida e os seus problemas, pode, através dessa reflexão conjunta criar um verdadeiro contacto e ajudar a fazer surgir uma inteligência total, em vez de fornecer apenas um conhecimento fragmentário sobre um assunto particular, por muito necessário que esse conhecimento possa ser.

Professor B – Há muitas revoltas dos estudantes por todo o mundo. Parece que não têm um objectivo positivo. O seu objectivo parece muito limitado, destrutivo, violento, sem nenhuma espécie de disciplina, sem nenhuma consideração pela vida humana. Parecem pensar que destruindo criarão uma nova sociedade, mas a história ensina-nos que a revolução física só traz consigo tiranias de diferentes espécies. Não parecem compreender isto. Querem mudança imediata, resultados imediatos, cujo instrumento parece ser a violência. Posso entender tudo isso, mas fico horrorizado, porque a violência só pode dar origem a mais violência.

Mas à parte de tudo isto, como professor gostaria muito de reflectir consigo e com os outros professores, a questão da disciplina. A disciplina do prémio e do castigo ainda continua, talvez de modo um pouco mais subtil, mas ainda continua.
Os exames talvez não sejam necessários; há escolas que estão a abandoná-los como teste final de capacidade, mas manter um relatório dos estudos dos alunos é ainda uma forma de prémio ou de castigo. Como diz, temos sido condicionados pela promessa disto e pela ameaça daquilo. Toda a estrutura social e moral está baseada nisso e, de acordo com isso, têm surgido várias formas de disciplina, não só culturais como religiosas. Agora, nesta sociedade permissiva, muitas dessas coisas desapareceram. Se perguntássemos a alguns estudantes o que significa disciplina estou certo que não o saberiam. Ou rejeitavam-na completamente e diziam: “Vocês (adultos) seguiram a disciplina e vejam aquilo em que se tornaram! A vossa ordem é caos; a vossa disciplina deu origem a guerras e a injustiça social. Não queremos isso, queremos uma sociedade diferente e o que vocês dizem acerca da disciplina e da ordem tem muito pouco significado para nós.” Mas à parte do que os jovens dizem, uma pessoa precisa de ter disciplina. Não se pode fazer nada sem ela. Se quisermos pintar a nossa casa, precisamos de começar de um modo ordenado. Não podemos espalhar a tinta por todo o lado.

Krishnamurti – O que significa essa palavra disciplina? Não quererá dizer o acto de aprender, aprender de um professor, aprender de todo o movimento da vida, da qual somos uma parte? Para aprender, tem de haver atenção, e atenção é ordem; não quer dizer que se imponha ordem para se estar atento, mas sim que o próprio acto de aprender necessita de atenção – seja qual for o assunto – seja pintar, seja escrever uma carta. Todas as coisas precisam de atenção, para se fazerem bem. Impomos disciplina ao estudante, na esperança de que aprenderá a concentrar-se no livro que tem à sua frente e que realmente não lhe interessa. Ele deseja olhar pela janela, para as colinas ou para as folhas baloiçando com a brisa, e para aquela pessoa que vai a passar. Está aborrecido com o que se lhe está a dizer. O professor vê-o a olhar pela janela, e diz-lhe para se concentrar no livro ou no que se está a dizer. O estudante sabe que se não fizer isso terá qualquer espécie de castigo, e assim faz um esforço para se concentrar. E é esse mesmo esforço que o torna mecânico. Passará por certo num exame qualquer, mas para o resto da sua vida vai habituar-se a ser completamente mecânico. Ao passo que, quando ele vem precipitadamente de outra aula, o professor lhe pedir para se sentar calmamente durante alguns minutos. E se ele olhar pela janela lhe disser para olhar para as árvores, para a cor das folhas, as sombras, a beleza das colinas, para a pessoa que passa*. Podemos deixá-lo olhar completamente, sem medo de não dar logo atenção ao livro ou ao que o professor está a dizer. Deixemos os seus olhos descansarem na beleza da Terra, e quando ele tiver dado atenção às coisas à sua volta, poderá então olhar para o livro com a mesma atenção sem resistência. É esta resistência, na vida como na escola, que torna a mente rígida, medrosa e insensível.

Desde o início que levamos os estudantes a terem medo e depois damos-lhes prémios. Naturalmente que rejeitam tudo isto. Quanto mais sensível é o estudante, menos quer ser moldado por um sistema que está essencialmente baseado no prémio e no castigo, com as suas “disciplinas” e conflitos.

A ordem é necessária para se fazer seja o que for, não é verdade? Podíamos examinar e falar sobre tudo isto com o estudante, num espírito de compreensão e de pesquisa, comunicando verbalmente, sem ordens nem ameaças, mostrando o que é a desordem, não o que é a ordem. Essa investigação, essa compreensão da desordem cria ordem, e não o contrário. Se tivermos um padrão para a ordem como as ditaduras e, de uma forma mais suave, as democracias têm, qualquer pessoa inteligente inevitavelmente se revoltará contra isso. Mas reflectir sobre tudo isto com o estudante não só estabelece uma relação diferente entre o professor e o aluno, como essa investigação ajuda a mente a não ser mecânica. Uma mente assim descobre as desordens causadas pela violência, pela autoridade, pela moralidade baseada em padrões – a qual é obviamente imoral, quando se vêem os absurdos dos dogmas religiosos, que têm causado tanta confusão no mundo, com as suas características exclusivistas, etc. Na compreensão de toda esta desordem, a ordem surge naturalmente. E nesta ordem não há repressão, imitação ou conformismo. Assim, a ordem não é algo que seja imposto por outrem, por nós ou pela sociedade. É algo que resulta naturalmente da observação diária da desordem à nossa volta e em nós mesmos. Na “disciplina” vulgar do prémio e do castigo, tal como na do conformismo há um grande desperdício de energia – através do conflito, da repressão, do medo e através do prazer da recompensa. Este desperdício procura mais energia através da violência, através da chamada “liberdade” na qual cada um faz o que lhe apetece, e através da constante procura do entretenimento. Por isso são poucos os que tornam realmente eficientes e a vasta maioria dos seres humanos apenas desperdiça as suas energias, perdendo a frescura e o vigor.

Mas quando há investigação da desordem, e quando nasce a natural precisão matemática da ordem, há então uma libertação de abundante energia, que não se tornará destrutiva, violenta ou prejudicial. Afinal, é esta a função da educação, em vez de tornar a mente mais mecânica, reprimindo assim o movimento da energia, que então se torna violenta, brutal e cheia de toda a fealdade a que o homem tem dado origem.

Educar é fazer surgir a extraordinária beleza da ordem, através do aprender os perigos da desordem. A mente perderá então toda a sua actividade agressiva, competitiva, cruel e desumana. A essência da desordem é a actividade egocêntrica que todas as sociedades e comunidades têm encorajado de diferentes formas. Tendo sido encorajada, esta actividade leva à violência, e então a sociedade recorre à repressão.

A profissão de professor é fundamental. Se ele não compreende a desordem em si próprio e à sua volta, quando fala sobre a ordem, torna-se hipócrita, e o estudante detecta bem depressa a hipocrisia. Por consequência não tem respeito pelo professor, ou por qualquer outra coisa, e rapidamente ele próprio fica confuso, em desordem e se torna hipócrita. Torna-se aquilo que o professor, o adulto, é. A sociedade do adulto forma-o, condiciona-o para ser violento, competitivo ou conformista.

A função da educação é mostrar-lhe tudo isto; não apenas um fragmento da vida. Sem isso, perdem-se a profunda compreensão humana e a afeição. E o amor é a própria essência da ordem.

Brockwood Park, 11 de Setembro, 1970

* Krishnamurti dirige-se aqui a professores das escolas por ele fundadas, que procurou sempre que ficassem envolvidas por um belo ambiente natural. (N.T.)

 

EDUCAÇÃO E RESPONSABILIDADE

A palavra responsabilidade precisa de ser compreendida em todo o seu significado. Deriva de responder; responder não parcialmente, mas de maneira total.

Este termo também implica uma resposta dependente de algo anterior, uma resposta de acordo com o nosso fundo social e cultural, o que significa reagir segundo o nosso condicionamento. Como é geralmente compreendida, a responsabilidade reflecte a acção do condicionamento humano de cada um. Naturalmente, a cultura, a sociedade em que se vive, condiciona a mente, quer essa cultura seja a do próprio lugar quer estrangeira. É a partir desse condicionamento que se responde, o que limita a capacidade de resposta. Se se nasceu na Índia, na Europa, na América, ou onde quer que seja, a resposta da pessoa será de acordo com a superstição “religiosa” – todas as religiões são estruturas cheias de superstição* - ou de acordo com o nacionalismo, com teorias científicas, etc.

Tudo isso, que é sempre limitado, restrito, condiciona a resposta. Assim, há sempre contradição, conflito e confusão. Isto torna-se inevitável, criando divisão entre os seres humanos. E essa divisão, sob qualquer forma, tem necessariamente de produzir, não apenas conflito e violência, mas também, por fim, a guerra.

Se compreendermos o verdadeiro sentido da palavra responsável e o que hoje se passa no mundo, vemos que a responsabilidade se tornou irresponsável. E ao percebermos o que é irresponsável, começamos a compreender o que é a responsabilidade. Como está implicado na própria palavra, a responsabilidade é em relação ao todo, e não apenas em relação a si próprio ou à família, ou a alguns conceitos ou crenças, mas a toda a humanidade.

As nossas várias culturas têm acentuado a separatividade, a que se chama individualismo e como resultado cada um faz o que lhe apetece, ou é absorvido pelo seu pequeno talento particular, por muito proveitoso ou útil que esse talento possa ser à sociedade. Não quer dizer, como os totalitaristas querem fazer crer, que só o Estado e as autoridades que o representam são importantes, e não os seres humanos. O Estado é um conceito, mas um ser humano, embora viva no quadro do Estado, não é um conceito. O medo é uma realidade e não um conceito.

Psicologicamente, um ser humano é toda a humanidade. Não só a representa como é toda a espécie humana: ele é, na sua essência, toda a psique da humanidade.

Várias culturas têm sobreposto a esta realidade a ilusão de que cada ser humano é diferente. Há séculos que a humanidade está aprisionada nesta ilusão e tal ilusão tornou-se uma realidade. Mas se cada um observar atentamente toda a estrutura psicológica de si mesmo, verá que tal como ele sofre, assim, em graus diversos, toda a humanidade sofre. Se vos sentis só, toda a humanidade conhece também essa solidão. A angústia, o ciúme, a inveja e o medo são conhecidos de todos. Assim, psicologicamente, interiormente, cada um é como os outros seres humanos. Podem existir diferenças de ordem física, biológica. É-se alto ou baixo, assim por diante, mas basicamente cada um representa toda a humanidade. Assim, psicologicamente, sois o mundo; sois responsáveis por toda a humanidade, e não só por vós como seres humanos separados, o que é uma ilusão psicológica.

Quando compreendemos que representamos toda a espécie humana, a nossa resposta é total e não parcial. A responsabilidade tem então um sentido inteiramente diferente. Temos de aprender a arte desta responsabilidade. Se compreendemos plenamente que cada um, psicologicamente, é o mundo, então a responsabilidade torna-se amor a que nada resiste. Então cuidamos da criança não só enquanto é pequenina, mas procuramos que pela vida fora compreenda o sentido da responsabilidade. Esta arte inclui a conduta, o modo como pensamos, e a acção correcta, que é tão importante. Nestas nossas escolas, não damos importância apenas às matérias escolares, embora elas sejam necessárias; o sentido de responsabilidade, para com a terra, para com a natureza, para com os outros seres humanos, faz parte da nossa educação.

Podemos então perguntar que é que o professor está a ensinar e que é que o aluno está a receber; e, de modo mais geral – que é aprender? Qual é a função do educador? Será só ensinar álgebra, física, etc., ou será despertar no estudante – e portanto em si mesmo – este grande sentido de responsabilidade? As duas coisas – a aprendizagem das matérias escolares, necessárias para uma profissão, e esta responsabilidade para com toda a humanidade e para com toda a vida – poderão andar juntas? Ou deverão andar separadas? Se as separamos, haverá então contradição na vida do aluno; haverá hipocrisia e, inconsciente ou deliberadamente, o jovem repartirá a sua vida em dois compartimentos estanques. A humanidade vive nesta divisão. Em casa é-se de uma certa maneira, e na fábrica ou no escritório assume-se uma face diferente. Perguntamos pois se as duas coisas podem andar juntas. Será possível? Quando se põe uma questão desta espécie, o que é preciso é investigar as suas implicações, em vez de responder se é ou não possível. Assim, é da maior importância o modo como abordais a questão. Se a abordais a partir do vosso condicionamento, que é limitador como todo o condicionamento, então só haverá uma apreensão parcial das implicações de tudo isto. Tereis de abordar a questão com um espírito novo. Descobrireis então a futilidade da própria questão, porque quando a abordamos com um espírito novo, vemos que as duas coisas se encontram, como dois cursos de água que se fundem num rio imenso, que é a nossa vida, a nossa vida quotidiana de uma responsabilidade total.
É isto que estais a ensinar, compreendendo que o professor tem uma profissão de importância fundamental?

Tudo isto não é uma questão só de palavras; é uma realidade permanente que não deve ser desprezada. Se não sentis a verdade disto, então deveríeis realmente exercer outra profissão. E vivereis então nas ilusões que a humanidade cria para si própria.

Podemos portanto perguntar, de novo: que estais a ensinar e que está o aluno a aprender? Criareis aquela atmosfera especial em que acontece uma verdadeira aprendizagem? Se compreendeis a imensidade da responsabilidade e toda a sua beleza, então assumis inteiramente a responsabilidade pelo aluno – o que ele come, a roupa que veste, a sua maneira de falar, e assim por diante.

Desta questão surge ainda outra: que é aprender? A maior parte de nós, provavelmente, nem mesmo faz esta pergunta ou, se a faz, responde segundo a tradição, que aprender é acumular conhecimentos, conhecimentos de que nos servimos com maior ou menor capacidade, para ganhar a vida. É isso o que se ensina, é para isso que todos os colégios e universidades, todas as escolas tradicionais existem. O conhecimento tem o lugar predominante, o que constitui um dos nossos maiores condicionamentos, e desse modo o cérebro nunca se liberta do conhecido. Está sempre a acrescentar ao que já se conhece. E assim é metido na estrutura rígida do conhecido e nunca está livre para descobrir uma maneira de viver que não se baseie no conhecido. O conhecido leva a um caminho já andado, seja estreito ou largo, e fica-se nessa rotina, pensando que nela há segurança. Essa segurança é porém destruída pelo próprio conhecido, que é sempre limitado. Tal tem sido, até agora, o curso da vida humana.

Haverá então um modo de aprender que não transforma a vida numa rotina, num caminho estreito? Que é então aprender?

Temos de perceber com muita clareza os mecanismos do conhecimento: primeiro adquirir conhecimento, e depois agir a partir desse conhecimento – tecnológico e psicológico – ou então agir, e a partir da acção adquirir conhecimento. Em ambos os casos há aquisição do conhecimento.

O conhecimento é sempre o passado. Existirá um outro modo de agir, sem o enorme peso do conhecimento acumulado pelo homem? Existe. Não é o aprender que conhecemos; é a observação pura que não é uma observação contínua e que então se torna memória, mas uma observação de momento a momento.

O observador (o eu) é a essência do conhecimento e impõe àquilo que observa o que adquiriu através da experiência e de várias formas de reacção sensorial. O observador está constantemente a manipular aquilo que observa, e aquilo que observa é sempre reduzido a conhecimento. Assim, está sempre prisioneiro da velha tradição de formar hábitos.

Aprender é pois uma observação pura – não só das coisas exteriores a nós, mas também do que está a acontecer interiormente; é observar sem o observador.

15 de Novembro, 1978

* Krishnamurti distingue religião de religiões, estruturas hierárquicas revestidas de autoridade, em contradição com a liberdade indispensável para penetrar a profundidade do Real – "o Intemporal", "o Imenso". "A religião não exige conhecimento ou crença, mas uma extraordinária inteligência, e também liberdade; o homem religioso necessita de liberdade, uma liberdade total." In A Transformação do Homem, p. 48, ed. ITAU, Lisboa, 1982. (N.T.).


POR QUE FICAMOS MAGOADOS NO RELACIONAMENTO?

Liberdade exige ordem. Grande parte das nossa vidas é vivida em desordem, mas na compreensão dessa desordem, no aprender sobre ela, a ordem surge de modo natural e inevitável.

Penso que a palavra liberdade tem sido tão mal usada que devemos examiná-la de modo muito profundo e ver se é de facto possível neste mundo caótico, tão profundamente louco, viver uma vida totalmente livre, embora cheia de ordem, e investigar também o que é a ordem no relacionamento.

Explorar isto não tem nada a ver com memorizar, mas sim com aprender. Infelizmente somos educados para memorizar. Por todo o mundo, nas escolas, dá-se à memória uma enorme importância. É necessário cultivar a memória, mas isso também contribui para um modo de viver mecânico; confiar na memória dá uma certa segurança, uma certa estabilidade, mas também dá origem a uma mente bastante insensível. Aprender é algo inteiramente diferente. Aprender não é cultivar a memória. Aprender sobre alguma coisa que não conheço requer, não só atenção mas também empenhamento cuidadoso e curiosidade, um certo "risco", uma certa qualidade da mente que não está apenas a funcionar no campo do conhecimento mecânico, mas que está também a investigar coisas que desconhece. Nessa mesma investigação reside o começo do aprender: não se trata de acumular mas de estar constantemente a aprender. É isso que vamos fazer esta manhã: aprender o que significa ter liberdade, ordem, responsabilidade, e verdadeiro relacionamento.

Ontem, investigámos um pouco a questão da ordem e da desordem. Ao observarmos a nossa vida que está tão desordenada, apercebemo-nos das múltiplas causas que dão origem à desordem. Podem dar-se muitas explicações para essas causas, e a maior parte de nós satisfazer-se com explicações, em vez de descobrir as causas, para as ultrapassar. Uma vida de desordem significa contradição, divisão, vários apetites em oposição a outros apetites, várias exigências em contradição com outras exigências, etc. Esta divisão em nós mesmos é uma das maiores causas da desordem. Observar essa desordem e observar como um todo a sua causa, precisa de atenção e cuidado.

Pergunto-me a mim mesmo quantos de nós têm investigado profundamente tudo isto, não intelectualmente, não superficialmente, mas pesquisando muito profundamente em nós mesmos.

Quando se começa a olhar, vemos que essa desordem existe por certo não só dentro de nós mesmos, mas também nas nossas relações. Porque toda a nossa sociedade é resultado dos nossos relacionamentos, não só com os que nos são mais íntimos mas também com o vizinho – quer esse vizinho esteja a pequena distância de nós ou a milhares de quilómetros, ele é ainda o nosso semelhante.

O que é o relacionamento no contexto da liberdade? Pode existir liberdade no relacionamento? Ou estará a liberdade sempre limitada, quando a memória interfere no relacionamento?

Reparem, por favor, que se trata de compartilharmos este assunto. A exploração ou a investigação que estamos a fazer é um trabalho em que estamos a cooperar para descobrirmos o que significa liberdade no relacionamento, e estamos portanto na aprender.

Assim, o que é o relacionamento? Estaremos de facto em relação uns com os outros? Embora possamos estar casados, ter filhos, estaremos de facto em relação? Relacionamento é estar em contacto, compreender o outro, ter um estreito companheirismo, ser capaz de estabelecer uma profunda responsabilidade nessa relação. Vamos aprender o que esta responsabilidade significa, num contexto de liberdade.

Podemos fazer uma afirmação, mas infelizmente somos "educados" para tirar dela uma conclusão; essa conclusão torna-se então uma memória, e passamos a viver de acordo com ela. Ou seja, ouvimos fazer uma afirmação e tiramos dela uma conclusão, que é uma abstracção. A conclusão é guardada na memória e actuamos de acordo com essa memória e essa conclusão. É isto que geralmente fazemos, porque pensamos que as conclusões nos vão dar segurança. Dá-nos "segurança" termos uma conclusão acerca de alguma coisa, mas isso torna-se mero conhecimento, uma memória, e portanto acaba o aprender. Escutem, por favor, com muita atenção. Se ouvirmos uma afirmação e não tiramos dela a conclusão de que está certa ou errada, de que estamos ou não de acordo com ela, se não formarmos uma opinião acerca do que ouvimos, mas se só escutarmos, nesse mesmo acto de escutar está o aprender, o qual não é uma conclusão abstracta. Dado que a maior parte das nossas vidas se baseia em conclusões, não estamos realmente a viver mas sim a viver de acordo com um conceito. Entre esse mesmo conceito e a realidade está a divisão e, portanto, há conflito e desordem.

Assim, o que é o relacionamento, já que é uma das coisas mais importantes da vida? Não podemos viver sem estarmos em relação. Toda a vida é um movimento feito de relações, e sem compreendermos o significado da palavra relacionamento, a sua natureza mais profunda, será completamente impossível gerar uma mudança fundamental na sociedade. É nossa obrigação compreender o significado e a responsabilidade envolvidos no relacionamento.

Estaremos nós alguma vez em relação com alguém, ou há barreiras a separar-nos, entre um homem e uma mulher, entre nós e o nosso vizinho, entre o outro e nós? Se há barreiras, que essencialmente são conclusões, então o relacionamento não existe. Se eu tiver uma conclusão sobre alguém, o que é uma opinião, um juízo, uma avaliação, uma imagem sobre essa pessoa, obviamente não estarei a relacionar-me com ela.

Esta barreira levanta-se e, portanto, no relacionamento não há responsabilidade, excepto a que se aplica à conclusão que eu construí sobre o outro. Se eu tenho uma conclusão sobre alguém, só serei leal a essa conclusão; sinto-me seguro nessa conclusão e sinto que sou responsável por essa conclusão. E o outro terá a sua própria conclusão, opinião, juízo, imagem sobre mim, e será responsável por essa imagem, opinião, juízo, conclusão – e, mesmo assim, pensamos que estamos em relação. Vendo isto, não o memorizando, mas observando, aprendendo sobre isto, poderá a mente ver de facto se está vivendo à base de conclusões no que diz respeito ao relacionamento?

Colocando a questão mais frontalmente, mais definitivamente: temos conclusões acerca da nossa mulher, do nosso marido, ou de quem quer que seja, e somos nós os responsáveis por essas conclusões, não pela pessoa mas pela ideia que fazemos dessa pessoa, o que quer dizer que não temos um relacionamento verdadeiro. Poderá essa conclusão, opinião, juízo, imagem, dentro da qual ns abrigamos, ser posta de lado totalmente, de modo a que também no futuro sejam evitadas mais conclusões?

Estamos juntos nesta caminhada? Por favor, partilhem isto com o orador. Estamos caminhando pela mesma estrada tentando aprender, à medida que avançamos, o que significa o relacionamento, porque este é uma das coisas mais importantes da vida. Não podemos fugir ao relacionamento. Podemos construir barreiras entre nós; cada um pode perseguir as suas próprias tendências, ambições, prazeres, isolando-se a si próprio no relacionamento. Isto é o que se está a fazer agora, cada um tentando preencher o seu objectivo egoísta.

Portanto, vamos investigar duas coisas: as conclusões que tiramos sobre os outros e o impedimento de futuras conclusões. Temos conclusões sobre os outros e, individualmente, os outros também as têm sobre nós (neste caso, sobre o orador); Se não fosse assim, vocês não estariam aí sentados. Seremos nós capazes de pôr de lado essas conclusões? De outro modo, vocês não estão em relação com o orador e, portanto, não há comunicação, não podemos partilhar o que está a ser dito. Compreendendo o significado, o sentido da relação, de que qualquer conclusão, imagem, juízo entre nós e o outro é uma barreira, seremos nós capazes de pôr tudo isso de lado? Isto só pode ser feito observando e aprendendo sobre isso, em vez de dizermos "Tenho de pôr isso de lado, para ter bons relacionamentos". Isto é, será que podemos observar, em nós próprios, as conclusões, as imagens que construímos sobre os outros, observar isso sem o querer transformar, reprimir, negar, ou justificar? Apenas observá-lo? E poderemos observar sem o observador que cria a imagem?

Não se trata de um processo de análise. A análise impede, de facto, uma acção completa, e é uma forma de paralisia. Podemos adiar a acção através da análise. Análise implica tempo, implica aquele que analisa e aquilo que é analisado, e cada análise tem de ser completa e correcta, verdadeira, caso contrário, aquilo que analisámos fica incompleto e vai distorcer a próxima análise. Podemos levar anos e anos a analisar e nada muda, e no fim da nossa vida ainda estamos a analisar. Mas se entrarmos nesta questão da análise de um modo bastante profundo e claro, descobriremos e aprenderemos por nós mesmos – não através do orador – que a causa tem o seu efeito e que o efeito se torna a causa na próxima acção, criando-se, desse modo, uma cadeia sem fim. Olhamos e vemos que a análise não traz compreensão e, portanto, não há percepção e acção.

Poderá a mente, com o seu observador, que formou conclusões sobre os outros, ver em si mesma por que o fez, que é a busca de segurança que a levou a isso? E poderá a mente, ao ouvir isto, não tirar uma conclusão, mas sim ver a verdade do que se passa? E vendo essa verdade, e aprendendo, acabar com as conclusões que já formou? Poderemos evitar mais conclusões nas nossas relações? As conclusões podem ser evitadas se no momento da palavra, do gesto, do olhar, estivermos totalmente conscientes do que está a acontecer.

Não sei se estou a conseguir comunicar o que quero dizer. Vejamos, alguém me elogia, e eu gosto disso.. O gostar é já uma conclusão sobre quem elogiou, e fico com uma conclusão. Ou, essa pessoa é minha amiga e insulta-me, e desse insulto eu retiro uma conclusão, e passa a não ser já meu amigo. Mas poderá a mente observar atentamente quando alguém me elogia ou me insulta? Nessa atenção não há registo. A função do cérebro é registar e agir a partir dessa gravação. Isto é óbvio. Quando há percepção imediata e interior a respeito do elogio, não há qualquer registo; o que quer dizer que no momento do elogio ou do insulto temos de estar completamente atentos, temos de dar atenção total.

Vamos pôr esta questão de maneira diferente. Desde a infância que somos magoados psicologicamente. Temos tantas feridas, tantas memórias dolorosas, tantas coisas que nos deram enorme dor! Tudo isso está registado. Na escola somos feridos psicologicamente quando somos comparados com alguém que é "melhor" do que nós. Somos magoados em casa, na universidade... Toda a nossa existência é um processo de nos magoarmos psicologicamente uns aos outros, mesmo até nas relações mais íntimas. Essas feridas permanecem, e a partir delas nós desejamos ferir outras pessoas. Dessas feridas nasce a violência. Todos sabemos isto, conscientemente ou inconscientemente. No relacionamento há tantas feridas, e estas levantam uma profunda barreira. Portanto, podemos nós estar conscientes dessas mágoas? Talvez possamos quando estamos conscientes delas, o que é muito fácil; mas seremos nós capazes de dar por elas quando se escondem bem fundo, nos escuros cantos da nossa mente? Porque se não formos capazes, não saberemos o que significa amar, ser bondoso, ser generoso.

Portanto, a questão é: nas nossas relações temos sido feridos, brutalmente ou de uma forma muito subtil; será que essas feridas poderão ser apagadas, especialmente as que estão num nível inconsciente? Pensamos que podemos apagá-las através da análise, desvendando as feridas camada após camada, interminavelmente. Isso, inevitavelmente, levará tempo. Haverá um processo de expor completamente todas as feridas, e ficarmos totalmente libertos delas?

Este é um desafio para nós. Podemos nós, sem usar a análise, pôr a descoberto todo o conteúdo das feridas psicológicas, que faz parte da nossa consciência e, ao expô-las, ficarmos livres delas? Isso é um desafio. Será que podemos? Se dissermos "Não sei", ou "Isso pode ser feito", ou "Isso não pode ser feito, estamos a bloquear-nos, não é? Ao passo que se dissermos "Vamos observar, vamos ver se é mesmo possível explorar e expor todo este campo de feridas psicológicas..."

Por que é que ficamos magoados no relacionamento? Ficamos magoados porque, obviamente, temos uma imagem sobre nós mesmos. Sinceramente, não teremos nós uma imagem sobre nós mesmos? A imagem pode assumir muitas formas. Temos uma imagem sobre nós criada pelo pensamento através de vários acontecimentos, incidentes, e é essa imagem que fica ferida, insultada e elogiada. Seremos capazes de viver sem uma única imagem acerca de nós mesmos? Se formos capazes, então nunca mais seremos magoados.

Assim, seremos capazes de viver neste mundo sem qualquer imagem acerca de nós mesmos? Para o sabermos, temos de aprender. Temos de aprender a viver rodeado de imagens criadas por nós e pelos outros. Temos de aprender a viver uma vida na qual não há uma única conclusão no relacionamento – aprender acerca disso e não a perguntar se é ou não possível. Onde há aprender, surge a liberdade, e nessa liberdade há responsabilidade.

A palavra "responsabilidade" parece ser uma palavra fora de moda e talvez muitos de nós não gostemos dela; ela soa a algo "quadrado" – não é esta a palavra? – sim, é essa a palavra. (Risos). O que é ser-se responsável? A palavra significa "responder", responder correctamente em determinado momento. Não podemos responder adequadamente se temos uma ideia, ou uma ideologia acerca da responsabilidade. Somos responsáveis pelos nossos filhos, se os tivermos. Será que somos realmente responsáveis em relação à criança – ou somo-lo em relação a um padrão, um modo de vida, que aceitamos como sendo necessário socialmente, religiosamente, etc.? Somos responsáveis em relação à criança, ou somos responsáveis em relação a uma ideologia, a um modelo? Investiguemos isto enquanto falamos. De facto, no mundo actual não somos nada responsáveis pelas crianças. Responsabilidade significa cuidado, afeição, atenção, não apenas quando elas são pequenas, mas significa ver que tipo de educação elas têm, que tipo de vida vão ter no futuro.

O que significa estar a ser educado? Por que é que estamos a ser educados? Para quê? Para levarmos o tipo de existência que agora temos» Para nos conformarmos a um padrão social que as gerações passadas instalaram? Para imitar, para seguir, para aceitar guerras, para ser morto e matar? É para isto que estamos a ser educados? Para fazermos parte do sistema, da política, dos negócios, da religião e do resto das coisas que estão a acontecer no mundo? É para isto que estamos a ser educados? No entanto, afirmamos que somos responsáveis pelas crianças. Ponho muito em questão se de facto somos responsáveis. Talvez sejamos responsáveis em relação aos nossos desejos, aos nossos objectivos egoístas. Investiguemos isto porque, do modo como estamos a viver, a vida não tem qualquer sentido. Estamos a educar as crianças para um trabalho infindável durante cinquenta anos, a que se sucede a morte; educamo-las para lutarem pelo dinheiro, por posição social, etc. Tudo isto encorajado pelo comercialismo, pelo consumismo e por tudo o que está implicado nisso.

Portanto, seremos, de facto, responsáveis? Aparentemente, são o somos. E, contudo, se somos sérios, desejamos provocar uma mudança na sociedade, porque esta sociedade é corrupta. A sociedade é construída por todos nós, portanto, a corrupção está em nós. A menos que essa corrupção termine, não temos possibilidade de criar uma sociedade diferente. Liberdade significa responsabilidade até ao fim da nossa vida, não apenas em relação aos nossos filhos mas também no que diz respeito àquilo que fazemos, àquilo que pensamos.

E é por isso que a vida se torna muito, muito séria; temos medo de ser sérios porque somos treinados na busca do prazer. O prazer tornou-se muito importante para nós. Prazer é uma coisa, alegria é outra, e satisfação é outra. Podemos cultivar o prazer; todos os anúncios que se vêem na televisão cultivam o prazer. Se nos observarmos, veremos que lá bem no fundo estamos a perseguir palavras, acções e sentimentos de prazer nunca revelados. E que relação há entre prazer e alegria interior? Haverá entre eles alguma relação, ou estão completamente separados um do outro? Podemos convidar, cultivar, perseguir o prazer, mas não podemos cultivar ou perseguir a alegria profunda. Quando essa alegria acontece, isso dá-se sem qualquer convite; quando perseguimos essa alegria, que já passou, então ela transforma-se em prazer e passamos a perseguir o prazer. E quando o prazer não é completamente realizado há raiva, azedume, frustração e medo.

Não têm dado por tudo isto em vós mesmos? Se tiverdes dado, será possível abandoná-lo? Por todo o mundo as religiões têm recusado o prazer porque, dizem, não chegaremos a Deus através desse prazer; que temos de controlar os nossos desejos e dedicarmos a nossa vida a Jesus, a Krishna a Buda. Elas dizem "Não olheis para uma mulher, para a Natureza, para a beleza de uma montanha que possa fazer-vos pensar na beleza de uma mulher; não olheis para os pássaros voando porque precisais de toda a vossa atenção para servir Deus". E essas pobres criaturas, que toda a vida viveram em tortura, pensam que podem chegar a Deus através de uma mente torturada. Torturam não apenas os seus corpos mas também as suas mentes. E, infelizmente, a verdade exige uma mente totalmente inocente, uma mente que nunca foi ferida.

Assim, liberdade, ordem no relacionamento e responsabilidade andam sempre juntos. Se isto não for completamente, profundamente, vivido e compreendido e posto em acção, então veremos que a vida fica sem sentido, totalmente superficial, verbal, torna-se intelectualmente um vasto campo de conclusões, sem uma única flor desabrochando em bondade. Se isto não for estabelecido, a meditação ou a percepção daquilo que é a verdade nunca chegará a acontecer.

Santa Mónica (Califórnia)
17 de Março, 1974

INFORMAÇÕES

• Temos o prazer de comunicar a todos os nossos amigos que mais um livro de Krishnamurti foi traduzido e editado em Portugal. O novo livro tem por título MEDITAÇÃO – A LUZ EM NÓS MESMOS (This Light in Oneself) e foi publicado, em Março último, pela Editora Dinalivro (Rua João Ortigão Ramos, 17 A, 1500-362 LISBOA; telef.: 217122210; e-mail: comercial@dinalivro.pt).

• Realizou-se no dia 7 de Novembro, em Lisboa, um Encontro de pesquisa sobre autoconhecimento, dedicado ao tema "Será possível viver humanamente neste mundo caótico e desumano?".

Estiveram presentes cerca de quarenta pessoas provenientes das mais diversas zonas do país.

O prof. Javier Gomez Rodriguez, do Krishnamurti Link International, orientou e dinamizou as sessões, tendo como ponto de partida as projecções de um vídeo sobre o quotidiano da Escola de Brockwood Park e de um excerto do DVD "Washington D.C. Talks".

À semelhança dos Encontros anteriores, também este decorreu numa atmosfera de grande abertura e seriedade.

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