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BELEZA DA ORDEM E OS PERIGOS DA DESORDEM
No
telhado, na varanda e nas árvores estava um grupo de pequenos
macacos castanhos, de cauda comprida, irrequietos, sempre a correr
de uma lado para outro. Deviam ter chegado já tarde, na noite
anterior. As suas mãos pequenas colhiam os frutos e depois
de os provarem deitavam-nos fora. Puxavam constantemente os ramos
do grande tamarindo. Nunca estavam sossegados. Ainda que um ou dois
estivessem a dormir, cansados, estavam sempre a fazer alguma coisa
com as mãos, coçando-se, puxando o pelo ou limpando
o corpo de um outro. Tiravam pequenos insectos de outros macacos e
engoliam-nos. Tornavam o jardim numa terrível confusão.
Eram realmente muito destrutivos, mas ninguém parecia importar-se
com eles. Eram considerados animais sagrados e não se devia
tocar-lhes ou fazer-lhes mal. Só se podia apanhá-los
em grandes redes, sem os prejudicar, e levá-los para longe
num camião. Mas bem depressa eles voltavam, talvez não
o mesmo grupo, mas um outro. Se os observávamos muito calmamente,
fingiam não nos ver, mas estavam também a observar-nos
com olhos vigilantes. Havia um grande macho e a maior parte dos outros
tinha medo dele, passando à sua volta com muito cuidado, procurando
evitá-lo. Mas quando deixava uma árvore, iam atrás
dele. Talvez fosse o seu líder. Tinham mãos finas, rugosas,
compridas e bem formadas, e pareciam ser muito inteligentes. Mais
tarde, ao anoitecer, quando o sol se escondia, todos guinchavam na
grande árvore banyan. Uma árvore esplêndida, de
estrutura magnífica, que estendia os braços, para nos
dar as boas vindas.
Quando as crianças dançavam ou representavam uma peça
debaixo da árvore banyan, os macacos ficavam incomodados pela
luz, a música e o grande número de pessoas. Estas, tal
como os jardineiros, tentavam mandá-los embora, mas eles só
se afastavam quando lhes apetecia. Não gostavam de espaços
abertos. Para lá do vasto campo havia árvores de fruto
– papaias, laranjas, abacates – e também havia
uvas – mas estranhamente os macacos nunca iam para lá,
apesar de poderem estar ali muito bem. Nunca deixavam ninguém
aproximar-se muito deles. O macho grande só deixava que as
pessoas chegassem até cerca de três metros; se o olhávamos,
bem depressa isso lhe desagradava. Não mostrava medo, mas ficava
de olhar vigilante arguto e cauteloso.
Esse grupo particular podia eventualmente ir-se embora e durante algum
tempo, talvez semanas, não apareciam outros macacos. Quando
partiam, as árvores, os arbustos e mesmo as plantas mais pequenas
pareciam ficar satisfeitos com isso. Até os pássaros
não gostavam deles especialmente os corvos; quando um corvo
de aproximava, os macacos fugiam precipitadamente. Havia pequenas
crias agarradas às mães, e macacos jovens com as suas
longas caudas brincando juntos, balançando-se nos ramos, mas
nunca se aproximavam do macho grande. Evitavam-no com muito cuidado.
Naquela manhã, o tempo estava bastante fresco e o céu
azul completamente límpido. Uma longa fila de carros de bois,
carregados de feno, vinha em direcção ao vale. No dia
seguinte, todos os macacos desapareceram. Deviam ter subido até
às colinas, para “torturar” outras árvores
e devastar os amendoins. Por vezes encontrávamo-los na estrada,
mas haviam sossego, agora que tinham partido.
Naquela
sala, estavam muitos professores, vindos de diferentes partes do mundo.
Havia um gravador a trabalhar; na varanda sentia-se o perfume do jasmim.
O dia estava luminoso em sem nuvens e as colinas pareciam esculpidas
pelas mãos do homem.
Professor A – O que pensa o senhor destas novas máquinas
de ensino? Estão a ser muito usadas na América, e com
elas as crianças aprendem sozinhas enquanto o professor as
vai vigiando. E parece que aprendem muito mais rapidamente.
Krishnamurti – É estranho como tudo está a mecanizar-se.
Essa aprendizagem mecânica faz a mente tornar-se mais mecânica.
Não se pode discutir nenhum assunto com uma máquina.
Podemos fazer-lhe perguntas e ela responderá mecanicamente.
E isso pode tornar mais mecânica uma mente que já funciona
dessa maneira. Os senhores não acham que a criança,
o estudante, precisa de uma relação humana directa,
em vez de uma máquina? O professor que quer o bem da criança
que não está apenas a fornecer-lhe informações,
que é um ser humano reflectindo com o jovem sobre as muitas
coisas da vida e os seus problemas, pode, através dessa reflexão
conjunta criar um verdadeiro contacto e ajudar a fazer surgir uma
inteligência total, em vez de fornecer apenas um conhecimento
fragmentário sobre um assunto particular, por muito necessário
que esse conhecimento possa ser.
Professor B – Há muitas revoltas dos estudantes por todo
o mundo. Parece que não têm um objectivo positivo. O
seu objectivo parece muito limitado, destrutivo, violento, sem nenhuma
espécie de disciplina, sem nenhuma consideração
pela vida humana. Parecem pensar que destruindo criarão uma
nova sociedade, mas a história ensina-nos que a revolução
física só traz consigo tiranias de diferentes espécies.
Não parecem compreender isto. Querem mudança imediata,
resultados imediatos, cujo instrumento parece ser a violência.
Posso entender tudo isso, mas fico horrorizado, porque a violência
só pode dar origem a mais violência.
Mas à parte de tudo isto, como professor gostaria muito de
reflectir consigo e com os outros professores, a questão da
disciplina. A disciplina do prémio e do castigo ainda continua,
talvez de modo um pouco mais subtil, mas ainda continua.
Os exames talvez não sejam necessários; há escolas
que estão a abandoná-los como teste final de capacidade,
mas manter um relatório dos estudos dos alunos é ainda
uma forma de prémio ou de castigo. Como diz, temos sido condicionados
pela promessa disto e pela ameaça daquilo. Toda a estrutura
social e moral está baseada nisso e, de acordo com isso, têm
surgido várias formas de disciplina, não só culturais
como religiosas. Agora, nesta sociedade permissiva, muitas dessas
coisas desapareceram. Se perguntássemos a alguns estudantes
o que significa disciplina estou certo que não o saberiam.
Ou rejeitavam-na completamente e diziam: “Vocês (adultos)
seguiram a disciplina e vejam aquilo em que se tornaram! A vossa ordem
é caos; a vossa disciplina deu origem a guerras e a injustiça
social. Não queremos isso, queremos uma sociedade diferente
e o que vocês dizem acerca da disciplina e da ordem tem muito
pouco significado para nós.” Mas à parte do que
os jovens dizem, uma pessoa precisa de ter disciplina. Não
se pode fazer nada sem ela. Se quisermos pintar a nossa casa, precisamos
de começar de um modo ordenado. Não podemos espalhar
a tinta por todo o lado.
Krishnamurti – O que significa essa palavra disciplina? Não
quererá dizer o acto de aprender, aprender de um professor,
aprender de todo o movimento da vida, da qual somos uma parte? Para
aprender, tem de haver atenção, e atenção
é ordem; não quer dizer que se imponha ordem para se
estar atento, mas sim que o próprio acto de aprender necessita
de atenção – seja qual for o assunto – seja
pintar, seja escrever uma carta. Todas as coisas precisam de atenção,
para se fazerem bem. Impomos disciplina ao estudante, na esperança
de que aprenderá a concentrar-se no livro que tem à
sua frente e que realmente não lhe interessa. Ele deseja olhar
pela janela, para as colinas ou para as folhas baloiçando com
a brisa, e para aquela pessoa que vai a passar. Está aborrecido
com o que se lhe está a dizer. O professor vê-o a olhar
pela janela, e diz-lhe para se concentrar no livro ou no que se está
a dizer. O estudante sabe que se não fizer isso terá
qualquer espécie de castigo, e assim faz um esforço
para se concentrar. E é esse mesmo esforço que o torna
mecânico. Passará por certo num exame qualquer, mas para
o resto da sua vida vai habituar-se a ser completamente mecânico.
Ao passo que, quando ele vem precipitadamente de outra aula, o professor
lhe pedir para se sentar calmamente durante alguns minutos. E se ele
olhar pela janela lhe disser para olhar para as árvores, para
a cor das folhas, as sombras, a beleza das colinas, para a pessoa
que passa*. Podemos deixá-lo olhar completamente, sem medo
de não dar logo atenção ao livro ou ao que o
professor está a dizer. Deixemos os seus olhos descansarem
na beleza da Terra, e quando ele tiver dado atenção
às coisas à sua volta, poderá então olhar
para o livro com a mesma atenção sem resistência.
É esta resistência, na vida como na escola, que torna
a mente rígida, medrosa e insensível.
Desde o início que levamos os estudantes a terem medo e depois
damos-lhes prémios. Naturalmente que rejeitam tudo isto. Quanto
mais sensível é o estudante, menos quer ser moldado
por um sistema que está essencialmente baseado no prémio
e no castigo, com as suas “disciplinas” e conflitos.
A ordem é necessária para se fazer seja o que for, não
é verdade? Podíamos examinar e falar sobre tudo isto
com o estudante, num espírito de compreensão e de pesquisa,
comunicando verbalmente, sem ordens nem ameaças, mostrando
o que é a desordem, não o que é a ordem. Essa
investigação, essa compreensão da desordem cria
ordem, e não o contrário. Se tivermos um padrão
para a ordem como as ditaduras e, de uma forma mais suave, as democracias
têm, qualquer pessoa inteligente inevitavelmente se revoltará
contra isso. Mas reflectir sobre tudo isto com o estudante não
só estabelece uma relação diferente entre o professor
e o aluno, como essa investigação ajuda a mente a não
ser mecânica. Uma mente assim descobre as desordens causadas
pela violência, pela autoridade, pela moralidade baseada em
padrões – a qual é obviamente imoral, quando se
vêem os absurdos dos dogmas religiosos, que têm causado
tanta confusão no mundo, com as suas características
exclusivistas, etc. Na compreensão de toda esta desordem, a
ordem surge naturalmente. E nesta ordem não há repressão,
imitação ou conformismo. Assim, a ordem não é
algo que seja imposto por outrem, por nós ou pela sociedade.
É algo que resulta naturalmente da observação
diária da desordem à nossa volta e em nós mesmos.
Na “disciplina” vulgar do prémio e do castigo,
tal como na do conformismo há um grande desperdício
de energia – através do conflito, da repressão,
do medo e através do prazer da recompensa. Este desperdício
procura mais energia através da violência, através
da chamada “liberdade” na qual cada um faz o que lhe apetece,
e através da constante procura do entretenimento. Por isso
são poucos os que tornam realmente eficientes e a vasta maioria
dos seres humanos apenas desperdiça as suas energias, perdendo
a frescura e o vigor.
Mas quando há investigação da desordem, e quando
nasce a natural precisão matemática da ordem, há
então uma libertação de abundante energia, que
não se tornará destrutiva, violenta ou prejudicial.
Afinal, é esta a função da educação,
em vez de tornar a mente mais mecânica, reprimindo assim o movimento
da energia, que então se torna violenta, brutal e cheia de
toda a fealdade a que o homem tem dado origem.
Educar é fazer surgir a extraordinária beleza da ordem,
através do aprender os perigos da desordem. A mente perderá
então toda a sua actividade agressiva, competitiva, cruel e
desumana. A essência da desordem é a actividade egocêntrica
que todas as sociedades e comunidades têm encorajado de diferentes
formas. Tendo sido encorajada, esta actividade leva à violência,
e então a sociedade recorre à repressão.
A profissão de professor é fundamental. Se ele não
compreende a desordem em si próprio e à sua volta, quando
fala sobre a ordem, torna-se hipócrita, e o estudante detecta
bem depressa a hipocrisia. Por consequência não tem respeito
pelo professor, ou por qualquer outra coisa, e rapidamente ele próprio
fica confuso, em desordem e se torna hipócrita. Torna-se aquilo
que o professor, o adulto, é. A sociedade do adulto forma-o,
condiciona-o para ser violento, competitivo ou conformista.
A função da educação é mostrar-lhe
tudo isto; não apenas um fragmento da vida. Sem isso, perdem-se
a profunda compreensão humana e a afeição. E
o amor é a própria essência da ordem.
Brockwood
Park, 11 de Setembro, 1970
*
Krishnamurti dirige-se aqui a professores das escolas por ele fundadas,
que procurou sempre que ficassem envolvidas por um belo ambiente natural.
(N.T.)
EDUCAÇÃO
E RESPONSABILIDADE
A
palavra responsabilidade precisa de ser compreendida em todo o seu
significado. Deriva de responder; responder não parcialmente,
mas de maneira total.
Este termo também implica uma resposta dependente de algo anterior,
uma resposta de acordo com o nosso fundo social e cultural, o que
significa reagir segundo o nosso condicionamento. Como é geralmente
compreendida, a responsabilidade reflecte a acção do
condicionamento humano de cada um. Naturalmente, a cultura, a sociedade
em que se vive, condiciona a mente, quer essa cultura seja a do próprio
lugar quer estrangeira. É a partir desse condicionamento que
se responde, o que limita a capacidade de resposta. Se se nasceu na
Índia, na Europa, na América, ou onde quer que seja,
a resposta da pessoa será de acordo com a superstição
“religiosa” – todas as religiões são
estruturas cheias de superstição* -
ou de acordo com o nacionalismo, com teorias científicas, etc.
Tudo isso, que é sempre limitado, restrito, condiciona a resposta.
Assim, há sempre contradição, conflito e confusão.
Isto torna-se inevitável, criando divisão entre os seres
humanos. E essa divisão, sob qualquer forma, tem necessariamente
de produzir, não apenas conflito e violência, mas também,
por fim, a guerra.
Se compreendermos o verdadeiro sentido da palavra responsável
e o que hoje se passa no mundo, vemos que a responsabilidade se tornou
irresponsável. E ao percebermos o que é irresponsável,
começamos a compreender o que é a responsabilidade.
Como está implicado na própria palavra, a responsabilidade
é em relação ao todo, e não apenas em
relação a si próprio ou à família,
ou a alguns conceitos ou crenças, mas a toda a humanidade.
As nossas várias culturas têm acentuado a separatividade,
a que se chama individualismo e como resultado cada um faz o que lhe
apetece, ou é absorvido pelo seu pequeno talento particular,
por muito proveitoso ou útil que esse talento possa ser à
sociedade. Não quer dizer, como os totalitaristas querem fazer
crer, que só o Estado e as autoridades que o representam são
importantes, e não os seres humanos. O Estado é um conceito,
mas um ser humano, embora viva no quadro do Estado, não é
um conceito. O medo é uma realidade e não um conceito.
Psicologicamente, um ser humano é toda a humanidade. Não
só a representa como é toda a espécie humana:
ele é, na sua essência, toda a psique da humanidade.
Várias culturas têm sobreposto a esta realidade a ilusão
de que cada ser humano é diferente. Há séculos
que a humanidade está aprisionada nesta ilusão e tal
ilusão tornou-se uma realidade. Mas se cada um observar atentamente
toda a estrutura psicológica de si mesmo, verá que tal
como ele sofre, assim, em graus diversos, toda a humanidade sofre.
Se vos sentis só, toda a humanidade conhece também essa
solidão. A angústia, o ciúme, a inveja e o medo
são conhecidos de todos. Assim, psicologicamente, interiormente,
cada um é como os outros seres humanos. Podem existir diferenças
de ordem física, biológica. É-se alto ou baixo,
assim por diante, mas basicamente cada um representa toda a humanidade.
Assim, psicologicamente, sois o mundo; sois responsáveis por
toda a humanidade, e não só por vós como seres
humanos separados, o que é uma ilusão psicológica.
Quando compreendemos que representamos toda a espécie humana,
a nossa resposta é total e não parcial. A responsabilidade
tem então um sentido inteiramente diferente. Temos de aprender
a arte desta responsabilidade. Se compreendemos plenamente que cada
um, psicologicamente, é o mundo, então a responsabilidade
torna-se amor a que nada resiste. Então cuidamos da criança
não só enquanto é pequenina, mas procuramos que
pela vida fora compreenda o sentido da responsabilidade. Esta arte
inclui a conduta, o modo como pensamos, e a acção correcta,
que é tão importante. Nestas nossas escolas, não
damos importância apenas às matérias escolares,
embora elas sejam necessárias; o sentido de responsabilidade,
para com a terra, para com a natureza, para com os outros seres humanos,
faz parte da nossa educação.
Podemos então perguntar que é que o professor está
a ensinar e que é que o aluno está a receber; e, de
modo mais geral – que é aprender? Qual é a função
do educador? Será só ensinar álgebra, física,
etc., ou será despertar no estudante – e portanto em
si mesmo – este grande sentido de responsabilidade? As duas
coisas – a aprendizagem das matérias escolares, necessárias
para uma profissão, e esta responsabilidade para com toda a
humanidade e para com toda a vida – poderão andar juntas?
Ou deverão andar separadas? Se as separamos, haverá
então contradição na vida do aluno; haverá
hipocrisia e, inconsciente ou deliberadamente, o jovem repartirá
a sua vida em dois compartimentos estanques. A humanidade vive nesta
divisão. Em casa é-se de uma certa maneira, e na fábrica
ou no escritório assume-se uma face diferente. Perguntamos
pois se as duas coisas podem andar juntas. Será possível?
Quando se põe uma questão desta espécie, o que
é preciso é investigar as suas implicações,
em vez de responder se é ou não possível. Assim,
é da maior importância o modo como abordais a questão.
Se a abordais a partir do vosso condicionamento, que é limitador
como todo o condicionamento, então só haverá
uma apreensão parcial das implicações de tudo
isto. Tereis de abordar a questão com um espírito novo.
Descobrireis então a futilidade da própria questão,
porque quando a abordamos com um espírito novo, vemos que as
duas coisas se encontram, como dois cursos de água que se fundem
num rio imenso, que é a nossa vida, a nossa vida quotidiana
de uma responsabilidade total.
É isto que estais a ensinar, compreendendo que o professor
tem uma profissão de importância fundamental?
Tudo
isto não é uma questão só de palavras;
é uma realidade permanente que não deve ser desprezada.
Se não sentis a verdade disto, então deveríeis
realmente exercer outra profissão. E vivereis então
nas ilusões que a humanidade cria para si própria.
Podemos portanto perguntar, de novo: que estais a ensinar e que está
o aluno a aprender? Criareis aquela atmosfera especial em que acontece
uma verdadeira aprendizagem? Se compreendeis a imensidade da responsabilidade
e toda a sua beleza, então assumis inteiramente a responsabilidade
pelo aluno – o que ele come, a roupa que veste, a sua maneira
de falar, e assim por diante.
Desta questão surge ainda outra: que é aprender? A maior
parte de nós, provavelmente, nem mesmo faz esta pergunta ou,
se a faz, responde segundo a tradição, que aprender
é acumular conhecimentos, conhecimentos de que nos servimos
com maior ou menor capacidade, para ganhar a vida. É isso o
que se ensina, é para isso que todos os colégios e universidades,
todas as escolas tradicionais existem. O conhecimento tem o lugar
predominante, o que constitui um dos nossos maiores condicionamentos,
e desse modo o cérebro nunca se liberta do conhecido. Está
sempre a acrescentar ao que já se conhece. E assim é
metido na estrutura rígida do conhecido e nunca está
livre para descobrir uma maneira de viver que não se baseie
no conhecido. O conhecido leva a um caminho já andado, seja
estreito ou largo, e fica-se nessa rotina, pensando que nela há
segurança. Essa segurança é porém destruída
pelo próprio conhecido, que é sempre limitado. Tal tem
sido, até agora, o curso da vida humana.
Haverá então um modo de aprender que não transforma
a vida numa rotina, num caminho estreito? Que é então
aprender?
Temos de perceber com muita clareza os mecanismos do conhecimento:
primeiro adquirir conhecimento, e depois agir a partir desse conhecimento
– tecnológico e psicológico – ou então
agir, e a partir da acção adquirir conhecimento. Em
ambos os casos há aquisição do conhecimento.
O conhecimento é sempre o passado. Existirá um outro
modo de agir, sem o enorme peso do conhecimento acumulado pelo homem?
Existe. Não é o aprender que conhecemos; é a
observação pura que não é uma observação
contínua e que então se torna memória, mas uma
observação de momento a momento.
O observador (o eu) é a essência do conhecimento e impõe
àquilo que observa o que adquiriu através da experiência
e de várias formas de reacção sensorial. O observador
está constantemente a manipular aquilo que observa, e aquilo
que observa é sempre reduzido a conhecimento. Assim, está
sempre prisioneiro da velha tradição de formar hábitos.
Aprender é pois uma observação pura – não
só das coisas exteriores a nós, mas também do
que está a acontecer interiormente; é observar sem o
observador.
15 de Novembro, 1978
* Krishnamurti
distingue religião de religiões, estruturas hierárquicas
revestidas de autoridade, em contradição com a liberdade
indispensável para penetrar a profundidade do Real –
"o Intemporal", "o Imenso". "A religião
não exige conhecimento ou crença, mas uma extraordinária
inteligência, e também liberdade; o homem religioso necessita
de liberdade, uma liberdade total." In A Transformação
do Homem, p. 48, ed. ITAU, Lisboa, 1982. (N.T.).
POR
QUE FICAMOS MAGOADOS NO RELACIONAMENTO?
Liberdade
exige ordem. Grande parte das nossa vidas é vivida em desordem,
mas na compreensão dessa desordem, no aprender sobre ela, a
ordem surge de modo natural e inevitável.
Penso que a palavra liberdade tem sido tão mal usada que devemos
examiná-la de modo muito profundo e ver se é de facto
possível neste mundo caótico, tão profundamente
louco, viver uma vida totalmente livre, embora cheia de ordem, e investigar
também o que é a ordem no relacionamento.
Explorar isto não tem nada a ver com memorizar, mas sim com
aprender. Infelizmente somos educados para memorizar. Por todo o mundo,
nas escolas, dá-se à memória uma enorme importância.
É necessário cultivar a memória, mas isso também
contribui para um modo de viver mecânico; confiar na memória
dá uma certa segurança, uma certa estabilidade, mas
também dá origem a uma mente bastante insensível.
Aprender é algo inteiramente diferente. Aprender não
é cultivar a memória. Aprender sobre alguma coisa que
não conheço requer, não só atenção
mas também empenhamento cuidadoso e curiosidade, um certo "risco",
uma certa qualidade da mente que não está apenas a funcionar
no campo do conhecimento mecânico, mas que está também
a investigar coisas que desconhece. Nessa mesma investigação
reside o começo do aprender: não se trata de acumular
mas de estar constantemente a aprender. É isso que vamos fazer
esta manhã: aprender o que significa ter liberdade, ordem,
responsabilidade, e verdadeiro relacionamento.
Ontem, investigámos um pouco a questão da ordem e da
desordem. Ao observarmos a nossa vida que está tão desordenada,
apercebemo-nos das múltiplas causas que dão origem à
desordem. Podem dar-se muitas explicações para essas
causas, e a maior parte de nós satisfazer-se com explicações,
em vez de descobrir as causas, para as ultrapassar. Uma vida de desordem
significa contradição, divisão, vários
apetites em oposição a outros apetites, várias
exigências em contradição com outras exigências,
etc. Esta divisão em nós mesmos é uma das maiores
causas da desordem. Observar essa desordem e observar como um todo
a sua causa, precisa de atenção e cuidado.
Pergunto-me a mim mesmo quantos de nós têm investigado
profundamente tudo isto, não intelectualmente, não superficialmente,
mas pesquisando muito profundamente em nós mesmos.
Quando se começa a olhar, vemos que essa desordem existe por
certo não só dentro de nós mesmos, mas também
nas nossas relações. Porque toda a nossa sociedade é
resultado dos nossos relacionamentos, não só com os
que nos são mais íntimos mas também com o vizinho
– quer esse vizinho esteja a pequena distância de nós
ou a milhares de quilómetros, ele é ainda o nosso semelhante.
O que é o relacionamento no contexto da liberdade? Pode existir
liberdade no relacionamento? Ou estará a liberdade sempre limitada,
quando a memória interfere no relacionamento?
Reparem, por favor, que se trata de compartilharmos este assunto.
A exploração ou a investigação que estamos
a fazer é um trabalho em que estamos a cooperar para descobrirmos
o que significa liberdade no relacionamento, e estamos portanto na
aprender.
Assim, o que é o relacionamento? Estaremos de facto em relação
uns com os outros? Embora possamos estar casados, ter filhos, estaremos
de facto em relação? Relacionamento é estar em
contacto, compreender o outro, ter um estreito companheirismo, ser
capaz de estabelecer uma profunda responsabilidade nessa relação.
Vamos aprender o que esta responsabilidade significa, num contexto
de liberdade.
Podemos fazer uma afirmação, mas infelizmente somos
"educados" para tirar dela uma conclusão; essa conclusão
torna-se então uma memória, e passamos a viver de acordo
com ela. Ou seja, ouvimos fazer uma afirmação e tiramos
dela uma conclusão, que é uma abstracção.
A conclusão é guardada na memória e actuamos
de acordo com essa memória e essa conclusão. É
isto que geralmente fazemos, porque pensamos que as conclusões
nos vão dar segurança. Dá-nos "segurança"
termos uma conclusão acerca de alguma coisa, mas isso torna-se
mero conhecimento, uma memória, e portanto acaba o aprender.
Escutem, por favor, com muita atenção. Se ouvirmos uma
afirmação e não tiramos dela a conclusão
de que está certa ou errada, de que estamos ou não de
acordo com ela, se não formarmos uma opinião acerca
do que ouvimos, mas se só escutarmos, nesse mesmo acto de escutar
está o aprender, o qual não é uma conclusão
abstracta. Dado que a maior parte das nossas vidas se baseia em conclusões,
não estamos realmente a viver mas sim a viver de acordo com
um conceito. Entre esse mesmo conceito e a realidade está a
divisão e, portanto, há conflito e desordem.
Assim, o que é o relacionamento, já que é uma
das coisas mais importantes da vida? Não podemos viver sem
estarmos em relação. Toda a vida é um movimento
feito de relações, e sem compreendermos o significado
da palavra relacionamento, a sua natureza mais profunda, será
completamente impossível gerar uma mudança fundamental
na sociedade. É nossa obrigação compreender o
significado e a responsabilidade envolvidos no relacionamento.
Estaremos nós alguma vez em relação com alguém,
ou há barreiras a separar-nos, entre um homem e uma mulher,
entre nós e o nosso vizinho, entre o outro e nós? Se
há barreiras, que essencialmente são conclusões,
então o relacionamento não existe. Se eu tiver uma conclusão
sobre alguém, o que é uma opinião, um juízo,
uma avaliação, uma imagem sobre essa pessoa, obviamente
não estarei a relacionar-me com ela.
Esta barreira levanta-se e, portanto, no relacionamento não
há responsabilidade, excepto a que se aplica à conclusão
que eu construí sobre o outro. Se eu tenho uma conclusão
sobre alguém, só serei leal a essa conclusão;
sinto-me seguro nessa conclusão e sinto que sou responsável
por essa conclusão. E o outro terá a sua própria
conclusão, opinião, juízo, imagem sobre mim,
e será responsável por essa imagem, opinião,
juízo, conclusão – e, mesmo assim, pensamos que
estamos em relação. Vendo isto, não o memorizando,
mas observando, aprendendo sobre isto, poderá a mente ver de
facto se está vivendo à base de conclusões no
que diz respeito ao relacionamento?
Colocando a questão mais frontalmente, mais definitivamente:
temos conclusões acerca da nossa mulher, do nosso marido, ou
de quem quer que seja, e somos nós os responsáveis por
essas conclusões, não pela pessoa mas pela ideia que
fazemos dessa pessoa, o que quer dizer que não temos um relacionamento
verdadeiro. Poderá essa conclusão, opinião, juízo,
imagem, dentro da qual ns abrigamos, ser posta de lado totalmente,
de modo a que também no futuro sejam evitadas mais conclusões?
Estamos juntos nesta caminhada? Por favor, partilhem isto com o orador.
Estamos caminhando pela mesma estrada tentando aprender, à
medida que avançamos, o que significa o relacionamento, porque
este é uma das coisas mais importantes da vida. Não
podemos fugir ao relacionamento. Podemos construir barreiras entre
nós; cada um pode perseguir as suas próprias tendências,
ambições, prazeres, isolando-se a si próprio
no relacionamento. Isto é o que se está a fazer agora,
cada um tentando preencher o seu objectivo egoísta.
Portanto, vamos investigar duas coisas: as conclusões que tiramos
sobre os outros e o impedimento de futuras conclusões. Temos
conclusões sobre os outros e, individualmente, os outros também
as têm sobre nós (neste caso, sobre o orador); Se não
fosse assim, vocês não estariam aí sentados. Seremos
nós capazes de pôr de lado essas conclusões? De
outro modo, vocês não estão em relação
com o orador e, portanto, não há comunicação,
não podemos partilhar o que está a ser dito. Compreendendo
o significado, o sentido da relação, de que qualquer
conclusão, imagem, juízo entre nós e o outro
é uma barreira, seremos nós capazes de pôr tudo
isso de lado? Isto só pode ser feito observando e aprendendo
sobre isso, em vez de dizermos "Tenho de pôr isso de lado,
para ter bons relacionamentos". Isto é, será que
podemos observar, em nós próprios, as conclusões,
as imagens que construímos sobre os outros, observar isso sem
o querer transformar, reprimir, negar, ou justificar? Apenas observá-lo?
E poderemos observar sem o observador que cria a imagem?
Não se trata de um processo de análise. A análise
impede, de facto, uma acção completa, e é uma
forma de paralisia. Podemos adiar a acção através
da análise. Análise implica tempo, implica aquele que
analisa e aquilo que é analisado, e cada análise tem
de ser completa e correcta, verdadeira, caso contrário, aquilo
que analisámos fica incompleto e vai distorcer a próxima
análise. Podemos levar anos e anos a analisar e nada muda,
e no fim da nossa vida ainda estamos a analisar. Mas se entrarmos
nesta questão da análise de um modo bastante profundo
e claro, descobriremos e aprenderemos por nós mesmos –
não através do orador – que a causa tem o seu
efeito e que o efeito se torna a causa na próxima acção,
criando-se, desse modo, uma cadeia sem fim. Olhamos e vemos que a
análise não traz compreensão e, portanto, não
há percepção e acção.
Poderá a mente, com o seu observador, que formou conclusões
sobre os outros, ver em si mesma por que o fez, que é a busca
de segurança que a levou a isso? E poderá a mente, ao
ouvir isto, não tirar uma conclusão, mas sim ver a verdade
do que se passa? E vendo essa verdade, e aprendendo, acabar com as
conclusões que já formou? Poderemos evitar mais conclusões
nas nossas relações? As conclusões podem ser
evitadas se no momento da palavra, do gesto, do olhar, estivermos
totalmente conscientes do que está a acontecer.
Não sei se estou a conseguir comunicar o que quero dizer. Vejamos,
alguém me elogia, e eu gosto disso.. O gostar é já
uma conclusão sobre quem elogiou, e fico com uma conclusão.
Ou, essa pessoa é minha amiga e insulta-me, e desse insulto
eu retiro uma conclusão, e passa a não ser já
meu amigo. Mas poderá a mente observar atentamente quando alguém
me elogia ou me insulta? Nessa atenção não há
registo. A função do cérebro é registar
e agir a partir dessa gravação. Isto é óbvio.
Quando há percepção imediata e interior a respeito
do elogio, não há qualquer registo; o que quer dizer
que no momento do elogio ou do insulto temos de estar completamente
atentos, temos de dar atenção total.
Vamos pôr esta questão de maneira diferente. Desde a
infância que somos magoados psicologicamente. Temos tantas feridas,
tantas memórias dolorosas, tantas coisas que nos deram enorme
dor! Tudo isso está registado. Na escola somos feridos psicologicamente
quando somos comparados com alguém que é "melhor"
do que nós. Somos magoados em casa, na universidade... Toda
a nossa existência é um processo de nos magoarmos psicologicamente
uns aos outros, mesmo até nas relações mais íntimas.
Essas feridas permanecem, e a partir delas nós desejamos ferir
outras pessoas. Dessas feridas nasce a violência. Todos sabemos
isto, conscientemente ou inconscientemente. No relacionamento há
tantas feridas, e estas levantam uma profunda barreira. Portanto,
podemos nós estar conscientes dessas mágoas? Talvez
possamos quando estamos conscientes delas, o que é muito fácil;
mas seremos nós capazes de dar por elas quando se escondem
bem fundo, nos escuros cantos da nossa mente? Porque se não
formos capazes, não saberemos o que significa amar, ser bondoso,
ser generoso.
Portanto, a questão é: nas nossas relações
temos sido feridos, brutalmente ou de uma forma muito subtil; será
que essas feridas poderão ser apagadas, especialmente as que
estão num nível inconsciente? Pensamos que podemos apagá-las
através da análise, desvendando as feridas camada após
camada, interminavelmente. Isso, inevitavelmente, levará tempo.
Haverá um processo de expor completamente todas as feridas,
e ficarmos totalmente libertos delas?
Este é um desafio para nós. Podemos nós, sem
usar a análise, pôr a descoberto todo o conteúdo
das feridas psicológicas, que faz parte da nossa consciência
e, ao expô-las, ficarmos livres delas? Isso é um desafio.
Será que podemos? Se dissermos "Não sei",
ou "Isso pode ser feito", ou "Isso não pode
ser feito, estamos a bloquear-nos, não é? Ao passo que
se dissermos "Vamos observar, vamos ver se é mesmo possível
explorar e expor todo este campo de feridas psicológicas..."
Por que é que ficamos magoados no relacionamento? Ficamos magoados
porque, obviamente, temos uma imagem sobre nós mesmos. Sinceramente,
não teremos nós uma imagem sobre nós mesmos?
A imagem pode assumir muitas formas. Temos uma imagem sobre nós
criada pelo pensamento através de vários acontecimentos,
incidentes, e é essa imagem que fica ferida, insultada e elogiada.
Seremos capazes de viver sem uma única imagem acerca de nós
mesmos? Se formos capazes, então nunca mais seremos magoados.
Assim, seremos capazes de viver neste mundo sem qualquer imagem acerca
de nós mesmos? Para o sabermos, temos de aprender. Temos de
aprender a viver rodeado de imagens criadas por nós e pelos
outros. Temos de aprender a viver uma vida na qual não há
uma única conclusão no relacionamento – aprender
acerca disso e não a perguntar se é ou não possível.
Onde há aprender, surge a liberdade, e nessa liberdade há
responsabilidade.
A palavra "responsabilidade" parece ser uma palavra fora
de moda e talvez muitos de nós não gostemos dela; ela
soa a algo "quadrado" – não é esta a
palavra? – sim, é essa a palavra. (Risos). O que é
ser-se responsável? A palavra significa "responder",
responder correctamente em determinado momento. Não podemos
responder adequadamente se temos uma ideia, ou uma ideologia acerca
da responsabilidade. Somos responsáveis pelos nossos filhos,
se os tivermos. Será que somos realmente responsáveis
em relação à criança – ou somo-lo
em relação a um padrão, um modo de vida, que
aceitamos como sendo necessário socialmente, religiosamente,
etc.? Somos responsáveis em relação à
criança, ou somos responsáveis em relação
a uma ideologia, a um modelo? Investiguemos isto enquanto falamos.
De facto, no mundo actual não somos nada responsáveis
pelas crianças. Responsabilidade significa cuidado, afeição,
atenção, não apenas quando elas são pequenas,
mas significa ver que tipo de educação elas têm,
que tipo de vida vão ter no futuro.
O que significa estar a ser educado? Por que é que estamos
a ser educados? Para quê? Para levarmos o tipo de existência
que agora temos» Para nos conformarmos a um padrão social
que as gerações passadas instalaram? Para imitar, para
seguir, para aceitar guerras, para ser morto e matar? É para
isto que estamos a ser educados? Para fazermos parte do sistema, da
política, dos negócios, da religião e do resto
das coisas que estão a acontecer no mundo? É para isto
que estamos a ser educados? No entanto, afirmamos que somos responsáveis
pelas crianças. Ponho muito em questão se de facto somos
responsáveis. Talvez sejamos responsáveis em relação
aos nossos desejos, aos nossos objectivos egoístas. Investiguemos
isto porque, do modo como estamos a viver, a vida não tem qualquer
sentido. Estamos a educar as crianças para um trabalho infindável
durante cinquenta anos, a que se sucede a morte; educamo-las para
lutarem pelo dinheiro, por posição social, etc. Tudo
isto encorajado pelo comercialismo, pelo consumismo e por tudo o que
está implicado nisso.
Portanto, seremos, de facto, responsáveis? Aparentemente, são
o somos. E, contudo, se somos sérios, desejamos provocar uma
mudança na sociedade, porque esta sociedade é corrupta.
A sociedade é construída por todos nós, portanto,
a corrupção está em nós. A menos que essa
corrupção termine, não temos possibilidade de
criar uma sociedade diferente. Liberdade significa responsabilidade
até ao fim da nossa vida, não apenas em relação
aos nossos filhos mas também no que diz respeito àquilo
que fazemos, àquilo que pensamos.
E é por isso que a vida se torna muito, muito séria;
temos medo de ser sérios porque somos treinados na busca do
prazer. O prazer tornou-se muito importante para nós. Prazer
é uma coisa, alegria é outra, e satisfação
é outra. Podemos cultivar o prazer; todos os anúncios
que se vêem na televisão cultivam o prazer. Se nos observarmos,
veremos que lá bem no fundo estamos a perseguir palavras, acções
e sentimentos de prazer nunca revelados. E que relação
há entre prazer e alegria interior? Haverá entre eles
alguma relação, ou estão completamente separados
um do outro? Podemos convidar, cultivar, perseguir o prazer, mas não
podemos cultivar ou perseguir a alegria profunda. Quando essa alegria
acontece, isso dá-se sem qualquer convite; quando perseguimos
essa alegria, que já passou, então ela transforma-se
em prazer e passamos a perseguir o prazer. E quando o prazer não
é completamente realizado há raiva, azedume, frustração
e medo.
Não têm dado por tudo isto em vós mesmos? Se tiverdes
dado, será possível abandoná-lo? Por todo o mundo
as religiões têm recusado o prazer porque, dizem, não
chegaremos a Deus através desse prazer; que temos de controlar
os nossos desejos e dedicarmos a nossa vida a Jesus, a Krishna a Buda.
Elas dizem "Não olheis para uma mulher, para a Natureza,
para a beleza de uma montanha que possa fazer-vos pensar na beleza
de uma mulher; não olheis para os pássaros voando porque
precisais de toda a vossa atenção para servir Deus".
E essas pobres criaturas, que toda a vida viveram em tortura, pensam
que podem chegar a Deus através de uma mente torturada. Torturam
não apenas os seus corpos mas também as suas mentes.
E, infelizmente, a verdade exige uma mente totalmente inocente, uma
mente que nunca foi ferida.
Assim, liberdade, ordem no relacionamento e responsabilidade andam
sempre juntos. Se isto não for completamente, profundamente,
vivido e compreendido e posto em acção, então
veremos que a vida fica sem sentido, totalmente superficial, verbal,
torna-se intelectualmente um vasto campo de conclusões, sem
uma única flor desabrochando em bondade. Se isto não
for estabelecido, a meditação ou a percepção
daquilo que é a verdade nunca chegará a acontecer.
Santa
Mónica (Califórnia)
17 de Março, 1974
INFORMAÇÕES
•
Temos o prazer de comunicar a todos os nossos amigos que mais um livro
de Krishnamurti foi traduzido e editado em Portugal. O novo livro
tem por título MEDITAÇÃO – A LUZ EM NÓS
MESMOS (This Light in Oneself) e foi publicado, em Março último,
pela Editora Dinalivro (Rua João Ortigão Ramos, 17 A,
1500-362 LISBOA; telef.: 217122210; e-mail: comercial@dinalivro.pt).
•
Realizou-se no dia 7 de Novembro, em Lisboa, um Encontro de pesquisa
sobre autoconhecimento, dedicado ao tema "Será possível
viver humanamente neste mundo caótico e desumano?".
Estiveram presentes cerca de quarenta pessoas provenientes das mais
diversas zonas do país.
O prof. Javier Gomez Rodriguez, do Krishnamurti Link International,
orientou e dinamizou as sessões, tendo como ponto de partida
as projecções de um vídeo sobre o quotidiano
da Escola de Brockwood Park e de um excerto do DVD "Washington
D.C. Talks".
À semelhança dos Encontros anteriores, também
este decorreu numa atmosfera de grande abertura e seriedade.
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